Agrotóxico contamina agricultores baianos
O uso do agrotóxico paration metílico é permitido há décadas no País, apesar da alta toxidade para a saúde humana e para o meio ambiente.
No mercado circulam nove marcas que contêm a substância comercializada por seis empresas, dentre as quais a Cheminova, que nos últimos dias está no centro de acalorados debates na Dinamarca, de onde é originária. A principal crítica é feita pela ministra do meio ambiente, Connie Hedegaard, que teria recomendado à empresa que não venda para outros o produto que é proibido no seu país.
O gerente-geral de toxicologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Luiz Claudio Meirelles, disse que o parationa metílico é “muito problemático” e que foi liberado com severas restrições por causa do risco que representa para os trabalhadores rurais. Ele informou que, a depender das razões da proibição na Dinamarca, o produto pode ter sua licença reavaliada.
O gerente de marketing da Cheminova no Brasil, Fábio Del Cistia, a empresa está há oito anos no País. Ele disse que as críticas feitas na Dinamarca serão respondidas pela matriz e adiantou que a marca Ferus ainda não está sendo comercializada no Brasil. A Ferus é da categoria mais tóxica e, segundo ele, ainda está em desenvolvimento.
As restrições impostas pelos órgãos responsáveis pela autorização dos agrotóxicos no País (ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente) estão expostas na bula do produto, que é de tarja vermelha e ressalta a alto risco para a saúde humana e para o meio ambiente.
Apesar disso, e da exigência de receituário assinado por engenheiro agrônomo, várias marcas do produto são comercializadas em lojas de produtos agropecuários sem maiores exigência, em pólos agrícolas como Juazeiro.
INTOXICAÇÃO – Utilizado por produtores agrícolas da região, nas culturas de tomate, melancia ou algodão, o paration metílico tem causado intoxicação em trabalhadores rurais. Hoje com 74 anos e exposto ao produto em 1996, o agricultor Francisco Alves Bezerra conta que sofreu muito depois que utilizou uma das marcas do produto em sua plantação de tomate, melancia e algodão no lote que possui no Projeto Curaçá. “Na época, sem nenhum conhecimento, não sabia que o produto fazia tanto mal e os vendedores não se preocupavam em mostrar quais eram os perigos”, relata o agricultor, que não trabalha mais no campo. “Sentia dores de cabeça, enjôos, coceira, apareceram marcas no corpo, passei por três médicos e estive internado internado seis vezes, meu coração cresceu. Nunca mais fui o mesmo”, disse ele.
De acordo com o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Juazeiro, Agnaldo Meira, há 150 mil trabalhadores assalariados em 12 municípios do eixo Bahia/Pernambuco, sendo que mais de 50% desse total está vulnerável aos venenos aplicados. “Não existe local para fazer o exame que detecta a intoxicação, não existe equipamento que proteja 100%, os equipamentos são feitos para utilização na Região Sul e quando usadas no Nordeste, que tem altas temperaturas, dificulta o uso. Uma gota do veneno tarja vermelha ingerido mata uma pessoa instantaneamente”, disse Agnaldo Meira. Ele duvida da eficácia dos agrotóxicos.
“O retorno da agricultura orgânica está trazendo experiências do passado que são melhores do que as atuais. Ainda espero ver o dia em que vai se dizer que uso de agrotóxico é coisa do passado”, afirmou o sindicalista.
Segundo a coordenadora do Centro Regional de Saúde do Trabalhador (Cerest) de Juazeiro, Maria Luíza Valverde Carneiro, a maioria dos trabalhadores que não usam equipamentos de proteção individual está nas pequenas áreas e são trabalhadores rurais autônomos.
“Nós prestamos assistência aos trabalhadores, avaliamos os problemas relatados para iniciar uma investigação sobre o trabalho e a doença apresentada”, disse.
MAIZA DE ANDRADE E CRISTINA LAURA