Bagaço de cana será usado para fazer álcool
Usado largamente como combustível em fornos de usinas de açúcar, alimento para gado e adubo, o bagaço de cana, resíduo da cadeia produtiva do setor, terá uma finalidade mais nobre a médio e longo prazos: será utilizado na obtenção de álcool. Foi o que informou o gerenteexecutivo de Desenvolvimento Energético do Gás e Energia da Petrobras, Mozart Schmitt, que participa em Salvador do Bioenergy World Américas, seminário reunindo especialistas de 20 países empenhados na substituição do combustível fóssil (petróleo) por alternativas renováveis.
“O bagaço de cana produzirá etanol através da técnica da hidrólise de material celulósico, tecnologia em desenvolvimento”, disse Schmitt, explicando que tem havido uma corrida em vários países visando aprimorar esse aproveitamento do resíduo. “Várias empresas estão investindo pesado, inclusive a Petrobras, já que não existe uma tecnologia comercial nesse setor”, disse, esclarecendo que a vertente não entra em choque com a produção do biodiesel, que utiliza outros rejeitos orgânicos. “O etanol captado do bagaço vai, inclusive, ajudar a matriz do biodiesel, pois será possível usar esse combustível, em vez do metanol do petróleo, nas usinas que produzem o combustível renovável”.
Schmitt confirmou o interesse internacional no tema. “Houve uma reunião esta semana no Itamaraty entre produtores e potenciais compradores de álcool do Brasil, EUA, Japão, Comunidade Européia, Índia, China e África do Sul. Discutiram, entre outras coisas, a regulamentação do mercado mundial de álcool”, contou. Devido à escalada crescente do preço do petróleo, o etanol está surgindo como alternativa real. “Como o Brasil aprendeu com a produção de álcool, os preços do etanol, hoje, competem com a gasolina, praticamente sem incentivo. Isso viabiliza o surgimento de um mercado internacional do produto, e aí todos querem conhecer a experiência brasileira de mais de 30 anos”.
BIODIESEL – Em relação ao programa do biodiesel, o surpreendente, segundo o executivo, é a velocidade com que surgem projetos de plantas industriais. “Hoje tem aproximadamente 100 projetos registrados no governo. Se todos vão se concretizar, não sabemos, mas, de qualquer forma, a oferta hoje de biodiesel é surpreendente: o governo previu os 2% de combustível renovável a ser acrescentado no diesel comum em 2008 e 5% em 2013, apostando na dificuldade de oferta, contudo a produção tem sido tão grande que essas metas serão superadas”, disse.
O Brasil já produz 840 milhões de litros por ano quando a meta projetada para 2006 era de 800 milhões.
Schmitt aproveitou sua passagem pela Bahia para proferir, na Câmara Municipal de Candeias, Região Metropolitana de Salvador, palestra sobre a implantação no município da primeira planta de produção de biodiesel da Petrobras na Bahia. O investimento será de R$ 78 milhões e a capacidade de produção, a plena carga da usina, é de 57 milhões de litros por ano.
O coordenador do programa de biodiesel da Secretaria de Tecnologia da Bahia, Roberto Fortuna, outro participante do evento, informou que existem seis protocolos assinados por diretores de empresas com o governo para a implantação de usinas no Estado que correspondem a mais de R$ 220 milhões e representam quando concluídos 300 milhões de litros/ano.
“A planta mais adiantada é a da IBR em Simões Filho, um investindo de R$ 9 milhões para produção de 20 milhões de litros/ano”, informou, esclarecendo que Salvador foi escolhida para a realização do seminário devido à rede de fomento criada na Bahia para o desenvolvimento de combustíveis renováveis.
“Além do incentivo do governo, várias universidades baianas pesquisam o assunto”, disse, lembrando ainda que a Bahia é o maior produtor nacional de mamona e o segundo de algodão, oleaginosas usadas na produção de biodiesel.
O desenvolvimento das pesquisas é tão grande que os técnicos descobriram ser possível usar quase todo material orgânico. “Podese produzir combustível com o azeite de dendê usado na fritura de acarajé, resíduos de óleo de soja caseiro, carcaça e gordura do boi e vários restos agrícolas”, contou Fortuna, informando que até do esgoto das cidades, onde existe grande quantidade de gordura e resíduos de óleos, será possível produzir biodiesel.
“As perspectivas são as melhores possíveis e isso pode ser observado no interesse internacional pelo nosso programa. Além de ser uma alternativa ao petróleo, tem a vertente ecológica, já que o combustível renovável é menos poluente”, lembrou. Conforme Fortuna, a única preocupação do setor é em relação a eventuais gargalos que podem ocorrer na produção.
“O programa vai beneficiar uma quantidade enorme de pessoas devido ao incentivo na produção de oleaginosas dentro da agricultura familiar, mas o governo federal precisa ficar atento para que os lavradores tenham sementes de qualidade e assistência técnica, pois a pior coisa que pode ocorrer é se projetar produção em escala mundial e não ter o produto”, disse, lembrando ser fundamental que sindicatos rurais e entidades populares organizem cooperativas para permitir que a produção da matéria-prima chegue às usinas.
BIAGGIO TALENTO