Indefesos (A Tarde)

12/12/2006

Indefesos

 

Quem  paga  a  conta  quando  os  imprevistos  assolam  o setor pecuário. O diretor-geral  da  Agência  Estadual de Defesa Agropecuária (Adab), Luciano Figueiredo, deu algumas respostas, logo que chegou da 18ª Conferência da Comissão  Regional  da  Organização  Mundial de Saúde Animal (OIE) para as Américas,  há  duas  semanas  em  Florianópolis (SC), onde a indenização de produtores foi um dos principais assuntos. Dirigindo  a  Adab  desde o início de 2002, Luciano  Figueiredo começa informando  que  três  são  as  fontes: os governos federal e estadual e os próprios  p  rodutores.  Para exemplificar, cita o caso da febre aftosa, no ano  passado, em Mato Grosso do Sul. "O governo federal pagou a maior parte das  indenizações,  quase  50%,  o  que  chegou a R$ 34 milhões para 34 mil animais, e o restante foi dividido entre o Estado do Mato Grosso do Sul e o fundo particular", informou.

Na condição de vice-presidente do Fórum Nacional de Dirigentes de Defesa Agropecuária (Fonesa), Luciano Figueiredo afirma que a instituição levou ao Ministério da Agricultura o pedido de criação de um fundo único nacional. "Os recursos viriam do próprio ministério e das grandes empresas, para evitar que o País todo sofra, como está acontecendo com as vendas para o mercado internacional", acrescenta. Em  nível estadual, o diretor da Adab informa que há o Fundo de Emergência para a febre aftosa. "Não há valores predeterminados e, nos casos emergenciais, a Adab solicita recursos à Secretaria Estadual da Fazenda", informa. A terceira fonte, disse Luciano  Figueiredo para A TARDE Rural,  é  o bolso dos próprios produtores.

Esses  recursos,  da  terceira  fonte,  vêm  do  Fundo  de Apoio à Pecuária (Fundap),  no  qual  os  produtores  ? no caso da Bahia, por exemplo, eles pagam,  voluntariamente,  R$  0,30 para cada Guia de Trânsito Animal (GTA). "Esse  fundo  é  de  tão grande importância, que deveria ser compulsório, a exemplo   da  vacinação  contra  a  aftosa",  defende  Luciano  Figueiredo. O diretor da Adab argumenta que o Fundap é uma defesa do próprio patrimônio do  produtor,  que  participa  da  gestão  do  fundo e do uso do dinheiro administrado  por  um  conselho formado por representantes da Secretaria da Agricultura,  universidades, associações de criadores, Conselho de Medicina Veterinária e sindicatos. Desde maio do ano passado, Gilberto Bastos, presidente da Associação Baiana dos  Criadores  do  Gado  Nelore, dirige o Fundap. Em viagem ao interior do
Estado,   Gilberto   Barros   não   pôde   falar   com   A   TARDE   Rural.

O produtor só é indenizado se ocorrer um fato cuja gravidade imponha,  pela  lei  de defesa animal do Estado ou do País, o sacrifício do animal,  a fim de assegurar a não-difusão da doença e o controle. Acontece, por  exemplo, em casos de morno (cavalos), febre aftosa e brucelose (bois e búfalos). Segundo Luciano Figueiredo, a discussão internacional tem sido em torno dos critérios  para  definição  da  culpabilidade  do  produtor  e se conseguir seriedade  no  uso dos recursos. "De início, o importante não é saber 'quem tocou   fogo   na  mata',  mas  apagar  o  fogo  do  incêndio",  raciocina. O diretor da Adab ressalta que é preciso maior rigor na apuração dos casos. "Nos  primeiros  surtos noMato Grosso do Sul a culpa foi, primeiro, de quem negociou  gado  de  uma  área contaminada, trouxe para outra sem as devidas preocupações epidemiológicas e sanitárias e colocou em uma propriedade onde o  índice  vacinal  não  estava a contento das exigências de cobertura para assegurar sanidade. Esse  produtor  não só teria os animais sacrificados, mas teria de pagar os prejuízos", conta.

O diretor da Adab fala de uma situação hipotética de três produtores, todos com 100 animais cada um  deles  cria  animais de raça, selecionados geneticamente, R$ 2 mil cada um.   O   outro,   tem   vacas   para  recria,  com  preço  de  R$  1  mil. E  um  terceiro,  bezerros,  custando  R$  500.  "Qual  critério  usar para indenizar  o primeiro. Do ponto de vista epedimiológico, todos são iguais", pontua. Luciano  Figueiredo sabe que o Fundap enfrenta grandes resistências, como a da  criadora  de  búfalos  Maria José Sampaio. Ela diz não contribuir e nem acreditar no fundo. "Não creio que traga benefícios. Acho  que  poderia vir a ajudar de outro modo. Por exemplo, não se permitir que  o preço da vacina contra a febre aftosa aumentasse tanto", critica uma das diretoras da Associação de Criadores de Búfalo da Bahia. Maria  José  não  é  a  única. Entre os demais criadores, Francisco Peltier Filho,  dono  de  um rebanho de 1.200 cabeças de Gir e Girolando, contribui com   o   Fundap,   mas,  também,  critica.  "Gostaria  que  houvesse  mais transparência   nas   prestações   de   contas  e  em  relatórios  para  as associações",  afirma  o  presidente  da Associação Baiana dos Criadores de Girolando.  Um  outro  criador,  Aloizio Oliveira do Couto, que adquiriu há dois  meses  uma  fazenda  com  170 cabeças de bovinos em Mata de São João, afirma  estar  disposto a pagar pelo Fundap quando for transportar animais. "Pagaria    para    dar    segurança    ao    meu    rebanho",   justifica.

# R$ 0,30, é o único valor pago, voluntariamente, pelos pecuaristas baianos, ao Fundap, para formação de um seguro privado
Fonte: Fundap/2006