Biodigestor elimina dejetos animais e produz energia no semi-árido baiano
No semia-árido baiano, em áreas do município de Juazeiro, criadores de cabras e ovelhas aproveitam dejetos dos rústicos animais para geração de energia, adubação de terra e combate à praga nas plantações. Este processo, explica o professor Danilo Gusmão, da Universidade do Estado da Bahia Uneb), no campus de Barreiras, é denominado de biodigestão.
Segundo o professor, que coordena o projeto “Produção de biogás dos dejetos de caprinos e ovinos na agricultura familiar”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPQq) e a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), a utilização dos dejetos na produção de energia contribui para a solução de problemas comuns do semiaacute;rido nordestino. O projeto é realizado em parceria com órgãos públicos, privados e não-governamentais.
Entre os problemas, o pesquisador cita escassez de fontes energéticas, desafio da produção de alimentos e alto índice de mortalidade dos animais. “Este processo, da biodigestão, reduz o efeito poluidor das fezes, ao mesmo tempo em que gera dois produtos de alto valor: o biogás e o biofertilizante”, detalha.
A produção dos derivados – biogáse biofertilizante – se dá por meio de um equipamento chamado de biodigestor.
O equipamento, usado como amostragem, está na Estação Experimental da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) de Caraíbas, no município de Pilar.
Segundo o pesquisador, a tecnologia não é nova, mas caiu em desuso após a década de 1980, por falta de difusão.
Há seis biodigestores em funcionamento no Estado, de acordo com Danilo Gusmão. Porém, Renata Valadares, da Winrock, organização que apóia a implantação de energias alternativas, estima em 12. No sul da Bahia, o biogás produzido a partir do esterco do gado bovino de leite ajuda na secagem de cacau.
Uma das vantagens no processo da biodigestão é o uso dos dejetos, que, se não eliminado, cria ambiente propício para proliferação de vetores transmissores de doenças, a exemplo da malária, febre amarela, filariose, febre tifóide, disenteria, poliomielite, entre outras doenças. “Além disso”, continua o Danilo Gusmão, “insetos como a mosca das bicheiras provocam ferimentos que levam à perda da qualidade da pele dos animais e a infecções secundárias”.
TECNOLOGIA – A energia limpa pode ser utilizada no fogão, substituindo a lenha ou o gás liquefeito de petróleo (GLP), e em caldeiras, motorese geradores de energia elétrica.
A instalação de um biodigestor, incluindo material e mão-de-obra, custa cerca de R$ 2 mil (veja abaixo um passo a passo com fotos e instruções).
Com a excreção de 50 caprinos e ovinos, é possível produzir biogás em quantidade equivalente a doisbotijões de gás de cozinha GLP), segundo Danilo Gusmão. Os dejetos de 200 animais geram energia para o suprimento de uma casa. Atualmente, um grande desafio do grupo de pesquisa baiano é a descoberta de tecnologias de compressão do gás, que deve ser queimado dia após dia, uma vez que ainda não é possível a armazenagem.
Por uma questão de logística, o equipamento deve ser instalado em área localizada entre o curral, de onde virão as fezes dos animais, a lavoura, onde será utilizado o biofetilizante, e a cerca de 20 metros do local para onde será levado o biogás, orienta o monitor do curso de engenharia ambiental da Faculdade de Tecnologia e Ciências, Luciano Sales, que dá suporte ao projeto.
Ele destaca os benefícios ecológicos decorrentes do biodigestor: a produção de energia limpa e a geração de créditos de carbono, prevista no Protocolo de Kyoto. O metano, que compõe entre 50% a 70% do biogás, é um dos grandes responsáveis pelo efeito estufa.
No Sul do País, a utilização das fezes de suínos na produção de energia tem permitido a diminuição do risco de contaminação ambiental, com a eliminação da poluição causada pelo material. Além disso, o biogás pode ser utilizado dentro de um “mix energético.
“Uma casa pode ser abastecida pela energia solar, biomassa, biodiesel.
Ou seja, pode-se formar um mix com energias limpas”, ressalta.
Danilo Gusmão afirma que estematerial pode, também, ser transformado em fertilizante orgânico e utilizado na adubação de culturas e pastos.
Ele alerta, todavia, para o equilíbrio que deve haver nos nutrientes do fertilizante orgânico. “Para que a carga de nutrientes não ultrapasse a capacidade do solo e as exigências da cultura podendo resultar em problemas ambientais, deve-se planejar a distribuição de esterco fazendo uma equiparação entre os minerais presentes no biofertilizante e as exigências das culturas ou pasto”, frisa.
De acordo com o engenheiro agrônomo, a Universidade de Campinas (SP) está analisando a composição do biofertilizante e o comportamento do solo que usa o produto.
“Já se sabe que o capim fertilizado com o derivado dos dejetos dos animais apresenta uma resposta mais rápida de crescimento”, diz ele.
“A aplicação dos dejetos sem tratamento no campo pode acarretar na queima das plantas, poluição ambiental, seqüestro de nitrogênio para decomposição da celulose (presente em grande quantidade no esterco) causando deficiência nas plantas, levar sementes de plantas daninhas e tóxicas, além de conter microrganismos patogênicos”, finaliza.