Mentiras sobre nosso agronegócio

18/12/2006

Mentiras sobre nosso agronegócio

 

Diversos argumentos falsos são usados para desmoralizar a produção nacional. Até 2003, o Brasil era o primeiro exportador mundial de café, suco de laranja, açúcar e tabaco. E, nos últimos quatro anos, assumiu também a liderança em carne bovina, carne de frango, no complexo soja e em etanol. São oito produtos que conquistaram mercados firmes. O interessante é que estes avanços formidáveis não se deram a partir de acordos na OMC, na Alca ou mesmo em função de entendimentos bilaterais. Eles foram o fruto da grande capacidade dos nossos produtores rurais, que incorporaram novas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa e outros órgãos estaduais de pesquisa, de forma eficiente, produzindo estes produtos com a qualidade exigida pelo mercado internacional, a preços competitivos. Também vale notar que esta competitividade se deu mesmo com nossos dramáticos problemas de infra-estrutura e logística, sem adequados recursos para a defesa sanitária, com tributações e juros elevados e com um dólar desvalorizado. E, ainda mais, com o reconhecimento, pela OCDE, de que o Brasil é o segundo país do mundo com menos subsídios agrícolas: os subsídios do governo brasileiro equivalem a 3% do PIB agrícola nacional, perdendo apenas para a Nova Zelândia, com 2%. E, ainda assim, este número só é maior que o da Nova Zelândia, devido à renegociação das dívidas rurais dos anos 90, com alguma subvenção nos juros das parcelas prorrogadas. Se estas questões fossem superadas, o agronegócio brasileiro daria saltos ainda mais espetaculares, incorporando novos mercados e com novos produtos avançando, como flores e frutas, produtos orgânicos e algodão, além da carne suína de alta qualidade. Em especial, se as negociações entre o Mercosul e a União Européia (UE) prosperassem, teríamos uma "injeção na veia" de cerca de US$ 2 bilhões a mais, anualmente, no agronegócio brasileiro. Lentamente, vamos modernizando nossas políticas anticíclicas, de forma a permitir a conquista de novos mercados no de médio prazo. No entanto, as coisas não têm sido fáceis. Outros países exportadores perderam mercados para o Brasil e, naturalmente, não estão satisfeitos com isso. Ao contrário, ficam o tempo todo procurando argumentos que nos desmoralizem e nos tirem da concorrência. Todo mundo sabe que o Brasil tem 62 milhões de hectares agricultados e mais de 200 milhões de hectares ocupados com pastagens, dos quais 90 milhões são aptos à agricultura. Nenhum continente - não apenas país -, tem este potencial, de modo que somos vistos com temor e, em certo casos, até com ódio pelos concorrentes. Estes se aproveitam de algumas fragilidades para tentar nos apagar do mapa. Foi o caso das carnes, com o surgimento dos focos de aftosa no ano passado, no Mato Grosso do Sul e no Paraná. Embora a aftosa não represente nenhum problema para a saúde humana, a retaliação foi violenta: mais de 50 países suspenderam as importações de carne bovina, suína e até de frango, em estados distantes como o Rio Grande do Sul, absolutamente livre da doença. Houve país que, argumentando com a aftosa, suspendeu importações de farelo de soja... E até hoje, meses depois de tudo controlado em relação à aftosa, há diversos países que mantêm a proibição das importações de carne bovina do Brasil, como é o caso inaceitável do Chile. Ou de carne suína, como a Rússia. São barreiras legítimas usadas de forma ilegítima em função de interesses puramente comerciais. As barreiras sanitárias e ambientais são, porém, procedentes e é preciso atender à vontade do freguês, daí a necessidade de nos adequarmos cada vez mais a estas demandas. Mas há certas questões inaceitáveis, porque são mentiras deslavadas, que, de tão repetidas, que acabam virando verdades. Uma destas é a questão do uso da Amazônia. Não falta quem espalhe, na Europa, que o crescimento da exportação de soja se dá por causa do desmatamento daquela região. Na verdade só 0,3% da soja brasileira é produzida na Amazônia. Uma insignificância! Agora, até o etanol é criticado, pois dizem que vamos derrubar a floresta tropical para plantar cana. Asneira suprema, até porque o volume de chuvas na região não permite o amadurecimento da cana, sendo tolice técnica e econômica tal uso daquela terra. E, ademais, o ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, tem mostrado dados do levantamento feito pela Embrapa, absolutamente claros quanto ao tema. Os estudos mostram o que aconteceu com as florestas primárias no mundo, nos últimos séculos. Basta olhar o que havia neste quesito em 1950 e o que há hoje. Em 1950, a Europa tinha 0,9% das florestas primárias do planeta e o Brasil, 18,4%. Hoje, a Europa tem 0,1% e o Brasil, 28,3%! Portanto, a Europa reduziu nove vezes sua participação e o Brasil aumentou a sua em quase 10%! Então, antes de nos criticar, os europeus deviam fazer sua lição de casa. Outro tema é o social: há países que não querem comprar nossos produtos, argumentando que seriam obtidos por trabalho escravo. Em primeiro lugar, tal item é crime no Brasil, e seu combate vem sendo muito eficiente pelo poder público. Em segundo lugar, o relatório de 2005 da OIT considerou o Brasil como um "exemplo na luta contra o trabalho forçado", que aqui se confunde com o trabalho escravo: temos mais de 17 milhões de pessoas trabalhando no campo e, em 2005, apenas 4.273 foram considerados em trabalho forçado. Ninguém em trabalho escravo! Enquanto isso, segundo o mesmo relatório, havia no mundo todo cerca de 12 milhões de pessoas em trabalho forçado. No Brasil, menos de 0,04% deste total! É isto que precisamos mostrar sempre. Quando os argumentos são procedentes, há que cuidar; quando são falsos, não podemos aceitá-los. (Roberto Rodrigues - Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presi)