Pescadores sofrem com descaso (A Tarde)

26/12/2006

Pescadores sofrem com descaso

Em Passagem, a 12 km de Pilão Arcado, está o maior entreposto de pesca da região norte da Bahia A população de Passagem, povoado do município de Pilão Arcado, há 12 quilômetros da sede, faz da pesca sua principal fonte de renda.

A atividade, que já deu emprego a milhares de famílias da antiga cidade de Pilão Arcado, que foi despovoada para dar lugar às águas da Barragem de Sobradinho no final da década de 70, agora faz com que muitos trabalhadores tenham que buscar outra fonte de renda.

Na Colônia de Pescadores de Passagem existem 1.400 associados, mas o número total ultrapassa os dois mil, segundo o pescador Rudival Caetano da Silva, 67, que já passou pelas profissões de sapateiro e trabalhador rural até se dedicar à pesca há duas décadas.

No entanto, ele ressalta que o “rio hoje não dá mais tanta condição de pesca como há 30 anos e muitos pescadores são obrigados a encontrar outras alternativas de renda”.

O período atual é de piracema – época de desova dos peixes em que a pescaria tem limitações e quase todos os pescadores estão com menos trabalho e pescado que em dias normais. “Muitos não seguem as determinações do Ibama e aproveitam a falta de fiscalização, pescando de maneira ilegal”, afirma o Rudival.

ATRAVESSADOR –Ele conta que a situação do pescador não é muito boa já que a pior parte é ter de conviver com a figura do atravessador.

“Os peixes, independente do tipo, é vendido a quilo aos atravessadores, que ficam com a parte maior do dinheiro. O pescador fica só com o trabalho e mais nada”, lamenta Rudival da Silva.

Os pescadores Bernondes Alencar de Souza, 55 anos, que veio de Pernambuco, e Rivaldo Alves de Souza, 65, da Paraíba, também frisam as dificuldades da pescaria nos dias de hoje.

“Na época, a gente saía até com 60 regatas. Tinha cerca de 90 canoas espalhadas no rio e a pesca passava e muito dos 100 quilos.

Ninguém imaginava que um dia isso pudesse mudar”, relata Bernondes de Souza.

PROJETO – A crise na pescaria levou o pescador Rudival da Silva a elaborar um projeto já em 1996.

Nele, o pescador planejou a criação de um frigorífico, que chegou a ser aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente. O projeto sugeria ainda a que cada pescador ganharia seu dinheiro vendendo seu próprio produto e tendo participação nos lucros.

“Infelizmente a notícia de que tudo teria que vir pela prefeitura fez com que desistíssemos, pois nunca fomos beneficiados com nada pelo poder municipal”, desabafa Rudival, que deposita grande expectativa no novo prefeito eleito do município de Pilão Arcado.

Os peixes comercializados em Passagem são vendidos pela metade do preço dos encontrados nos mercados e feiras-livres como Juazeiro, onde um quilo de surubim custa R$ 12,00 e em Passagem pode ser encontrado a R$ 6,00.

COMÉRCIO – Lado a lado com a atividade da pesca, cresce o comércio que nasce a partir da venda do peixe. É assim vão surgindo as fábricas de gelo. Na localidade de Passagem já existem três. Uma delas pertence ao pescador e agora pequeno empresário Agostinho de Carvalho Neto, que resolveu aumentar a renda da família com mais uma atividade.

Através do financiamento com a empresa distribuidora de câmaras frias ele comprou a sua para produção de gelo por R$ 135 mil que conseguiu pagar em um ano com a venda de gelo que custa R$ 0,14 o quilo.

“Produzimos entre 12 e 16 mil quilos de gelo por dia em época de grande movimento de pesca. Hoje com a Piracema não passa de 1 mil, o restante serve para abastecimento de restaurantes, bares e para a área de saúde de Pilão Arcado e Remanso”, diz Agostinho.

A máquina tem capacidade de armazenamento de 15 mil quilos por um tempo de até dez dias. “Tive um aumento na renda em torno de 150% depois que resolvi aliar a pesca ao gelo”, garante.

De acordo com ele, existe um diferencial que faz valer a pena o comércio do gelo: “a conta de energia é, em média, de R$ 900 devido um acordo com a Coelba que cobra R$ 0,11 por Kwatt ao contrário dos R$ 0,54 cobrados do restante da população”, frisa. (C.L.)