Imagens do sertão
Galeria Solar do Ferrão inaugura, na sexta-feira, mostra com fotos resultantes de projeto que registra a linguagem e o dia a dia dos vaqueiros
Passa boi, passa boiada, e lá está a figura do vaqueiro, com indumentária de couro e falar peculiar dos guardiões do nosso sertão. A cultura em torno deles é o tema da exposição Imagens dos Vaqueiros da Bahia, que será aberta sexta-feira, no Solar Ferrão, no Pelourinho.
A mostra é composta por 33 painéis resultantes do projeto Histórias de Vaqueiros: Vivências e Mitologias, do antropólogo e poeta Washington Queiroz. As 44 fotografias que integram a exposição foram feitas por Josué Ribeiro, Bauer Sá e Elias Mascarenhas entre as décadas de 1980 e 1990, durante a pesquisa de campo do antropólogo.
O projeto registra ainda a linguagem singular dos vaqueiros, por meio de depoimentos sobre o dia a dia, a relação com o trabalho, os animais, o meio ambiente, além de reflexões sobre a vida, o amor e a morte. O material já foi apresentado no interior do estado em outras duas ocasiões: em Feira de Santana, em2012, e em Juazeiro, no ano passado. Em Salvador, a mostra fica em cartaz até março.
Três décadas de pesquisa
Em 2014, Washington Queiroz completa 30 anos de pesquisa sobre a temática, tendo percorrido cerca de 70 localidades e 70 mil quilômetros. “Nesses rincões, existe uma dança, uma música, uma forma de crendice e de manifestação cultural”. Para Queiroz, a natureza também é de suma importância à cultura sertaneja. “Eles guardam
uma medicina natural e uma forte relação com o meio ambiente, coma fauna e a flora da caatinga”.
O depoimento do vaqueiro Antônio de Mário, de Xique-Xique, ilustra essa relação. “A gente num pode tê raiva da catinga, purque a floresta é a natureza que alegra a gente, a gente fica satisfeito quando vê as ave tudo verde, tudo alegre”.
A opinião do vaqueiro Cecé, de Valente, a respeito também está registrada. “Ah,dependeno de natureza, quarqué um animal daquele é a mesma coisa de um ser humano como nós”.
Reconhecimento
Apesar da riqueza cultural, o Washington Queiroz aponta um desconhecimento em torno de uma das profissões mais antigas do mundo, presente no País desde o início da colonização. ”São dez milhões de pessoas vivendo no sertão, o que não se vê na representação de Bahia. É como se o que fazem não existisse. O que há é um processo de aculturação muito grande”.
A pesquisa do antropólogo embasou o reconhecimento da profissão de vaqueiro como patrimônio imaterial da Bahia (em agosto de 2011), através do Conselho e da Secretaria Estadual de Cultura.
“É uma forma de reconhecer e dar garantias a esses homens que fizeram o território da Bahia, que deram unidade ao território nordestino”, afirma Washington Queiroz.
Para o vaqueiro Ademário Martins Cavalcanti, de Coração de Maria, a união também marca a profissão. “É uma classe forte, bem unida, mas que só está sendo reconhecida agora, de poucos dias pra cá. Fazemos parte da zona rural. Quem mora na cidade pouco olha pra nós e pra natureza”, afirma, aos 58 anos, dos quais quase 50 foram dedicados à lida com o gado.
Um dos maiores orgulhos de Ademário Aboiador (como é conhecido) é representar Brasil afora os Encourados de Pedrão, grupo do qual participa há mais de 20 anos.
“É um grupo que lutou pela Independência da Bahia. Todo ano participamos do cortejo de 2 de Julho. É uma maneira de a gente mostrar que fomos uns dos heróis da Independência”.
IMAGENS DOS VAQUEIROS DA BAHIA /
SOLAR FERRÃO / PELOURINHO / ABERTURA:
SEXTA-FEIRA, 17 / VISITAÇÃO: TERÇA A SEXTA,
12H ÀS 18H; SÁBADOS, DOMINGOS E
FERIADOS, 12H ÀS 17H / ENTRADA FRANCA