Vinho baiano atua como cardioprotetor
Pode a prática de exercícios físicos aliada à ingestão moderada de vinho tinto trazer benefícios ao organismo? Segundo pesquisa do laboratório de fisiologia do exercício da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), algumas substâncias dos vinhos – encontradas em maior concentração nos produzidos na região do Vale do São Francisco – contribuem para a diminuição da pressão arterial, proporcionam maior resistência do sistema cardiovascular e o aumento do colesterol bom, o HDL.
Intitulada “Exercício aeróbico e suplementação de vinho”, a pesquisa foi desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Indústria Agropecuária Embrapa Semiárido e teve início em 2012.
Doutor em educação física pela Universidade Católica de Brasília, o professor da Univasf e coordenador da pesquisa Ferdinando Oliveira Carvalho explica que o objetivo era verificar se a alta concentração de substâncias como o resveratrol, polifenóis e taninos, encontrados em grande quantidade na uva shiraz cultivada no Vale do São Francisco, poderia influenciar no melhor desempenho cardiovascular dos voluntários.
Resveratrol
“Pesquisas anteriores mostraram que os vinhos do Vale do São Francisco contêm até 18 vezes mais concentração de resveratrol, se comparados a outros produzidos no Chile, Argentina, Europa e sul do Brasil, o que chamou a nossa atenção, por isso resolvemos investigar os seus efeitos, associados à prática do exercício físico”, explicou.
O enólogo e pesquisador da Embrapa Giuliano Elias Pereira explica que nos parreirais, o resveratrol tem a função de proteger as plantas de determinados tipos de estresses físico e ambiental.
“Nas áreas de cultivo do semiárido brasileiro, as altas temperaturas e a pouca chuva que são características peculiares da região, aliadas à prática de interromper a irrigação quando os frutos estão próximos ao ponto de colheita, fazem com que as plantas acelerem seus mecanismos de defesa e produzam mais compostos biológicos, como o resveratrol, a quercetina e a rutina”, esclarece. Para a realização da pesquisa, 40 voluntários com idade entre 18 e 35 anos foram preparados por meio de avaliações clínicas, coleta de sangue, monitoramento cardíaco e teste de corrida na esteira, para determinar a intensidade com que cada um deveria treinar. Osparticipantes,queseinscreveram, obedeceram a alguns pré-requisitos determinados pela pesquisa, a exemplo de não serem hipertensos, nem fumantes e não fazerem uso de anabolizantes.
Em seguida, os voluntários foram divididos em quatro grupos: o primeiro consumia diariamente 250 ml de vinho tinto da variedade shiraz, com teor alcoólico de 13%, e realizava 45 minutos de exercícios aeróbicos na esteira três vezes por semana a 75% da velocidade máxima estimada.
O segundo grupo treinava, mas não tomava a bebida; o terceiro somente ingeria o vinho tinto e não fazia qualquer atividade física;o quarto grupo não treinava e não realizava a suplementação com o vinho.
Durante três meses, foi possível verificar que o grupo que consumiu o vinho e praticava exercícios regularmente obteve maior dilatação dos vasos sanguíneos e consequentemente a estabilização da pressão arterial e proteção cardiovascular em um índice 30% superior em relação àqueles que faziam exercícios, mas não tomavam o vinho.
“Em alguns casos, observamos que em apenas cinco minutos após beber o vinho e o início da atividade física, a pressão arterial de alguns indivíduos diminuía, produzindo melhor desempenho durante o exercício”, diz o pesquisador.
O grupo que somente ingeriu o vinho e manteve-se sedentário também obteve melhora no quadro cardíaco, porém em menor percentual. Já o grupo que não ingeriu vinho e não praticou exercício físico não manifestou qualquer alteração.
Carvalho enfatiza que o consumo da bebidas se destinou à realização da pesquisa e não como incentivo ao consumo de vinho seguido da prática do exercício físico.
Para o pesquisador, pelos percentuais em que são encontradas as substâncias nos vinhos locais, leva-se a crer que o consumo de vinhos tropicais do Brasil pode ser mais benéfico à saúde do que outros elaborados nas zonas de clima temperado.
“Concluímos que temos um produto com potente ação vasodilatadora e também capaz de reduzir o mau colesterol (LDL) e aumentar o bom colesterol (HDL) graças à grande concentração do resveratrol e de outras substâncias. Por isso pretendemos continuar a pesquisa, visando a outro perfil de indivíduos”, afirma o pesquisador.