Chiquita aceita oferta de Cutrale e Safra
Maior exportadora de suco de laranja do Brasil e do mundo, a Cutrale, com sede em Araraquara (SP), concluiu ontem outro movimento ousado em sua trajetória de mais de 60 anos. Em parceria com o Grupo Safra, chegou a um acordo definitivo para incorporar a americana Chiquita Brands International, uma das quatro líderes globais do mercado de bananas, e pavimentou mais uma rota alternativa para impulsionar os negócios e o crescimento do patrimônio de seus controladores.
Difícil e marcada por pronunciamentos ríspidos, a negociação foi encerrada no fim de semana. Na manhã de ontem, o conselho da Chiquita finalmente confirmou que aceitara a terceira proposta dos grupos brasileiros desde março. O acordo foi fechado pelos US$ 14,50 por ação em circulação colocados sobre a mesa na quinta-feira - US$ 1,50 acima do valor da primeira oferta hostil, apresentada em 11 de agosto. A oferta equivale a quase US$ 750 milhões, e a transação também inclui dívidas que elevam o montante total para cerca de US$ 1,3 bilhão.
Essa última proposta agradou a consultorias e aos acionistas da Chiquita e sobrepujou a posição do conselho da companhia americana, que preferia levar adiante uma fusão com sua rival irlandesa" Fyffes, outro vértice do quarteto que oligopoliza o mercado de bananas. Tal união foi anunciada em março deste ano e poderia criar, com a promessa de gerar sinergias de US$ 60 milhões, uma companhia com receita líquida conjunta de mais de US$ 4 bilhões.
Em relação ao fechamento das ações da Chiquita no dia em que foi divulgado o acordo preliminar com a Fyffes (7 de março), a derradeiras proposta de Cutrale e Safra representou um ágio de 33,8%.
As vendas líquidas da Chiquita atingiram US$ 3,1 bilhões no exercício 2013, mesmo patamar observado no ano anterior, e, do total, as operações no mercado de bananas representaram US$ 2 bilhões. Quase US$ 1 bilhão vieram do mercado de saladas e "snacks saudáveis" e US$ 121 milhões de outros negócios, de acordo com informações da multinacional. No total, estima-se que as vendas mundiais de bananas girem em torno de US$ 7 bilhões por ano.
A aquisição da Chiquita, portanto, fará a Cutrale mudar de patamar. No comunicado que confirmou o negócio, a empresa brasileira, que não costuma conceder entrevistas, informa que suas operações representam "mais de um terço" do mercado mundial de suco de laranja, calculado em US$ 5 bilhões por ano. Mas fontes do segmento estimam que os negócios da companhia com a bebida cheguem a US$ 3,5 bilhões.
Esse valor inclui as operações no Brasil, dominadas pelas exportações de suco de laranja concentrado e congelado (FCOJ, na sigla em inglês) e da bebida integral pronta para beber (NFC), e nos Estados Unidos, onde a Cutrale é a principal fornecedora de suco da Coca-Cola. Também envolve uma frente de atuação de pequeno porte em Portugal, criada para driblar a tarifa de importação de 12,5% cobrada pela União Europeia, principal destino das exportações brasileiras de suco de laranja.
Mas não é só isso. Com o apoio do Grupo Safra, que tem sob sua administração mais de US$ 200 bilhões em ativos, a Cutrale acredita ter encontrado na Chiquita uma oportunidade para replicar seu modelo de gestão em um segmento com algumas características parecidas com as do negócio de suco de laranja e, assim, continuar em evolução.
É verdade que a empresa já havia identificado na operação de trading de soja em grão uma boa saída para ampliar suas vendas em tempos de demanda internacional retraída por suco de laranja integral. Mas não é segredo para ninguém que essa atividade não está no "DNA" da Cutrale, ainda que continue a ter um papel importante para a companhia.
Já com o impulso da soja, as exportações da Cutrale a partir do Brasil cresceram para US$ 1,7 bilhão em 2013, conforme a Secex/Mdic. Com essa receita, 62% maior que a de 2012, a empresa foi a 17ª maior exportadora do país no ano passado.
Ao "misturar" bananas com laranjas, a Cutrale aposta em outro segmento superconcentrado (três grandes indústrias dominam as exportações globais de suco de laranja integral) e no qual a estratégia de originação da fruta e a infraestrutura logística são vitais. Observadores afirmam que o estilo centralizador de gestão imposto pelo empresário José Luís Cutrale poderá servir bem à Chiquita, mas lembram que também haverá muitas dificuldades.
A primeira, que vem do fato de a Chiquita ser uma empresa com ações negociadas em bolsa nos EUA, deverá ser resolvida depois que a operação for concluída, o que tende a ocorrer até o início de 2015. Não foi dito com todas as letras que o capital da nova controlada de Cutrale-Safra (dupla conhecida pela pouca transparência na comunicação com a sociedade em geral) será fechado, mas tudo indica que sim, já que a oferta foi por todas as ações em circulação.
O próprio mercado internacional de bananas também não vive suas melhores fases, e embolsar bons lucros com a fruta mais produzida e comercializada do planeta tem se mostrado uma difícil missão. Vide a receita da Chiquita, que vem "patinando" nos últimos anos. Na América do Norte, o volume negociado pela companhia cresceu 10,4% em 2013 sobre 2012, mas o preço médio de venda da fruta recuou 2,3%.
Outro obstáculo poderá ser "cultural", já que a Chiquita é outro "ícone" americano que passa ao controle de brasileiros. Em casos como o de Budweiser, Burger King, Heinz, Swift e Pilgrim's, ele foi superado. Fontes da área de suco de laranja acreditam que a governança rígida e o controle centralizado dos grupos brasileiros (fatores que ajudam a alimentar a antiga amizade de José Luís Cutrale e Joseph Safra) terão o mesmo efeito na compra da Chiquita - tratada, em comunicado conjunto, como uma "fusão" com Cutrale-Safra
À irlandesa Fyffes resta embolsar os cerca de US$ 20 milhões que serão pagos pela Chiquita pelo sepultamento do processo de fusão.