Fome e miséria na região do cacau

05/01/2007

Fome e miséria na região do cacau

Quem passa pela BR-330, rodovia federal que liga Jequié, sudoeste baiano, à BR-101, no sul do Estado, não imagina que por trás de tanta fartura de água e frutas tropicais às margens da pista se escondem miséria, fome e histórias de desilusão ilustradas pela derrocada do cacau. Cada qual, ao seu modo, tem um caso de prejuízo a relatar, mas é em Jitaúna, a 388 km de Salvador, que o problema é mais grave e contundente.
Não poderia ser diferente numa região fértil, mas que, devido à praga da vassoura-de-bruxa, ficou apenas com pouco mais de 2 hectares, dos quase 9 hectares plantados até 2003. A quantidade atualmente produzida não chega a 250 quilos – número bem distante de 1,5 tonelada de cacau em amêndoa colhida há quatro anos (segundo o IBGE/2003).

RESISTÊNCIA – Mas ainda existem aqueles que relutam em sucumbir.
Enquanto crianças se arriscam na travessia da movimentada pista para vender frutas a granel, o pai luta para encontrar serviço como pedreiro ou ajudante e a mãe se divide entre a lavagem de roupa e o fogão com miúdos de bode e feijão. Os menores brincam, descalços, fazendo barulho ao pisarem nas folhas de cacau que encobrem frutos podres no chão.

Foi nesse chão, a 30 km de Jequié, que a reportagem parou para ouvir a história do ex-cacauicultor Joel da Silva Oliveira, 51 anos. Ele que já foi dono de seis hectares, quatro dos quais reservados exclusivamente para o cacau, hoje é apenas mais um, entre os muitos alistados em frentes de serviço para roçagem de manga, construção de casas e colheita de café em terras distantes das suas. “Perdi tudo para a vassoura-de-bruxa, mas pelo menos não passo fome”. Não passa. Nem ele, nem a mulher, nem os dez filhos espalhados pela roça. “A gente vai se virando. Vende uma jaca aqui, um cacho de banana acolá, faz um serviço mais adiante. Não pode é ficar parado”, explica e continua: “Essa doença foi a maldição do cacau porque depois que ela chegou ninguém nunca mais se firmou na lavoura”, diz.

Apesar da fartura, a perda é grande. “Aqui chove bem, tem água à vontade, mas ninguém dá valor e a safra de frutas se perde toda.

Não tem uma indústria de polpa que compre”, destaca.

“Aqui, quem oferece menos leva a fruta. Tem uns que querem vender uma dúzia de caju por dois reais, um real, mas, se você pechinchar, leva até por 50 centavos”, ensina o adolescente Evandro Alves, 17 anos, desde os 5 na lida diária. E é assim também com a banana, a laranja, a manga, a jaca e o mamão.

“Não compensa a gente levar para a feira, porque cobram dois reais para levar cada saco”.