Tortorella participou do webinário da Seagri: “Possíveis impactos do conflito Rússia/Ucrânia no agronegócio do Brasil e da Bahia - Caminhos e ações pertinentes”

15/03/2022

 

O webinário realizado na última quinta-feira (10) pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri) deixou clara a situação do Brasil e da Bahia frente às dificuldades de aquisição de fertilizantes no mercado internacional, por conta do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Um tema muito importante no momento. Tanto que teve lançamento, logo na sexta-feira (11), o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), em cerimônia em Brasília que contou com as presenças do presidente Jair Bolsonaro e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (veja matéria em nosso site).

 

O webinário Seagri, que trouxe como tema “Possíveis impactos do conflito Rússia/Ucrânia no agronegócio do Brasil e da Bahia - Caminhos e ações pertinentes” teve as participações do titular da Seagri, João Carlos Oliveira, e de seu assessor especial, Thiago Guedes; do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda; do presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Odacil Ranzi; do diretor-executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), Ricardo Tortorella; e do coordenador de conjuntura da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (Sei), Arthur Cruz.

 

O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo. E os maiores produtores de NPK (nitrogênio, potássio e cálcio) do planeta são Rússia e China. A Rússia, em especial, é a segunda maior produtora de fertilizantes nitrogenados do mundo, a segunda maior produtora de potássio e a quarta maior de fertilizantes fosforados. Esse gigantismo atraiu o mercado brasileiro, que é um grande consumidor dos insumos russos. Em 2021, importamos 41,2 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo que, desse total, 22% vieram da Rússia. “A Rússia é um player importante para o mundo no setor de fertilizantes, e também para o Brasil”, dimensionou Ricardo Tortorella.

 

Preços em alta - No encontro, Tortorella chamou atenção para o fato de que os fertilizantes já vinham com seus preços em alta no mercado internacional, antes da guerra.  Isso porque, desde 2019, mercados como Brasil, Estados Unidos, Índia e China vêm aumentando suas produções, o que demanda maior quantidade de fertilizantes. “Para falar só do Brasil, em 2019 o mercado entregou 36 milhões de toneladas de fertilizantes no país. Em 2020 foram 40 milhões de toneladas, e em 2021 mais de 44 milhões. Então a agropecuária só cresceu nesse tempo pandêmico, seguindo na contramão da maioria dos setores, que tiveram retração. Por si só, pela lei de oferta e procura, o mercado de fertilizantes já estava em alta antes da guerra”, explicou Tortorella.

 

Os números de uso de fertilizantes de 2019 para cá realmente cresceram muito no Brasil, mas esse aumento, de maneira compassada, vem de longe. Nos últimos 30 anos, menos do que dobrou a extensão de área plantada no país, enquanto nossa produção deu saltos sequenciados, multiplicando-se várias vezes. E isso se deve à eficiência das práticas e também ao uso de adubos e fertilizantes.

 

“Há pouco tempo, para a safra de 2022, muitos técnicos apostavam que chegaríamos a 300 milhões de toneladas de grãos, um recorde histórico. Mas logo no início do ano tivemos excesso de chuvas em algumas áreas e seca em outras, diminuindo a previsão. E agora há todo esse problema com fertilizantes. Mas, mesmo que pensemos em uma safra perto dos 290 milhões de toneladas de grãos, o que é muito bom, precisamos de, por exemplo, 11 milhões de toneladas de cloreto de potássio. Desses, 3 milhões costumam vir da Rússia e outros 2,2 milhões da Bielorrússia, que também enfrenta restrições internacionais”, faz as contas Ricardo Tortorella. Ou seja, Rússia e Bielorrússia vinham sendo as origens, nos últimos anos, de quase a metade do cloreto de potássio importado pelo Brasil para sua agricultura.

 

Risco de desabastecimento - Para o diretor-executivo da Anda, é preciso ter cuidado com informações que circulam a respeito do mercado de fertilizantes. “Tem muita coisa que não é verdade sendo divulgada”, comentou. Para ele, a situação do setor dependerá muito do que irá acontecer nos próximos meses. “Precisamos ficar atentos, monitorar. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que temos estoques para três meses. Também tem o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) que o governo federal vai lançar amanhã (realizou o lançamento um dia depois do webinário). É importante acompanhar”, disse.

 

Seguindo na análise de possíveis entraves na relação comercial com a Rússia, o diretor-executivo revelou que um dos pontos preocupantes no momento diz respeito aos pagamentos. “Há impedimentos para que o dinheiro vá para a Rússia. Porém, muitas fábricas de fertilizantes russas são multinacionais, com sedes na Europa. Então, é possível fazer a transação financeira para um banco europeu, em qualquer lugar do mundo. O que os empresários russos não conseguiriam nesse tipo de transação é nacionalizar o dinheiro para o mercado russo, mais isso já não seria problema nosso”.

 

A outra questão refere-se às entregas. Esse tipo de transporte se dá pelo mar e muitas seguradoras de navios vêm orientando os proprietários a não navegarem pelo Mar Negro, sob pena de que, havendo problemas com a embarcação derivados da guerra, a seguradora não cobrir o sinistro. No dia 2 de março, uma semana após iniciado o conflito da Rússia com a Ucrânia, a Associação Alemã de Armadores (VDR) anunciou que cerca de 100 navios da frota mercante mundial estavam parados, sem possibilidade de seguir viagem, em portos no Mar Negro e no adjacente Mar de Azov. Mas, como teoricamente não há problemas com os portos russos de Moscou e São Petesburgo, por enquanto há expectativas de continuidade de entrega de fertilizantes por aquele país.

 

“Estamos interagindo muito com o governo federal e com o Plano Nacional de Fertilizantes. O PNF traz ações em médio e longo prazos, buscando aumentar a nossa produção nacional de fertilizantes e diminuindo nossa dependência internacional. A curto prazo, temos uma crise à nossa frente, e precisamos reunir esforços públicos e privados para monitorar esse momento, abrindo novos mercados e buscando novos fornecedores”, finalizou Ricardo Tortorella, da Anda.

 

Texto: Ascom SEAGRI
Imagem manipulada: Ascom SEAGRI
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