Petróleo e carne bovina ganham importância

19/01/2007

Petróleo e carne bovina ganham importância

 

O aquecimento da demanda mundial, puxado principalmente pelos países asiáticos - ávidos consumidores de commodities -, mexeu com a pauta de exportações do Brasil nos primeiros anos desta década. Além de mudanças de posições entre os dez produtos tradicionalmente mais vendidos a outros países, houve itens básicos que entraram nesta lista, como carne bovina, petróleo em bruto e açúcar em bruto, em detrimento de manufaturados, como calçados, aparelhos celulares, e semimanufaturados (celulose, ferro e aço). Analistas indicam que o cenário favorável às commodities, com aumento de preços, persistirá neste e no próximo ano. Para Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), a entrada da carne bovina e do petróleo no ranking pode ser vista como mudanças estruturais, enquanto a inclusão do açúcar em bruto é considerada conjuntural. O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, avalia que o açúcar ganhou posições no ano passado graças ao aumento dos preços internacionais. "Este ano o açúcar deve voltar a perder posições com o retorno da Índia ao mercado", diz Castro lembrando que em 2006 a Índia passou de grande exportadora a importadora do produto e foi a sua saída do mercado que provocou a elevação dos preços. Entre as mudanças esperadas por Ribeiro para 2007 figuram a possível entrada do álcool na lista dos dez produtos mais vendidos pelo Brasil. Júlio Callegari, economista do banco JP Morgan, complementa o raciocínio lembrando que o Brasil é um dos poucos lugares no mundo que possui a tecnologia para um produto mais "limpo" - e que atenderá a uma demanda reprimida. "É preciso aproveitar essa situação, investir na padronização e em processos que garantam o fornecimento do produto ao exterior, quando a demanda aumentar", ressalta. Falando em tendências, o executivo da AEB diz acreditar que as exportações de petróleo na pauta aumentem ainda mais. "As refinarias brasileiras apresentam baixa produtividade no beneficiamento do petróleo pesado. Por isso exportamos. Com a desaceleração do consumo interno, a tendência é de vender cada vez mais." Em relação à carne bovina, Castro destaca que além do esforço brasileiro em ampliar o abate e o rebanho, o País foi beneficiado por uma conjunção de fatores, apesar da aftosa. "A Austrália, tradicional exportadora de carne, sofre há dois anos com a seca. Os Estados Unidos foram afetados pela vaca-louca. A Argentina decretou um auto-embargo para controlar os preços internos. Sobrou o Brasil como principal fornecedor mundial num momento de preços elevados", afirma. Há três anos o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, em volume, e no ano passado liderou o mercado pela primeira vez em termos de receita. Entretanto, Castro pondera que a carne australiana ainda é mais valorizada e, portanto, mais cara que a brasileira. "Trata-se de uma questão sanitária. Apesar de mesmo com a aftosa as exportações brasileiras terem apresentado um desempenho excepcional, o surto afetou a imagem do produto brasileiro. O País precisa melhorar a sanidade para obter preços melhores." Segundo Callegari, o Brasil possui a qualidade de ter muita área para as pastagens, portanto, uma vantagem comparativa. "Deveríamos aproveitar vantagens como essa e garantir mais cuidados na área fitossanitária." Já os aviões, que caíram da 1 para a 6 posição em valores de venda nos últimos sete anos, segundo Castro, não apresentaram desempenho pior, ao contrário, a Embraer ampliou a capacidade de produção de aviões, inclusive de maior porte e com mais tecnologia embarcada. "Os aviões perderam posição em razão do aumento de participação das commodities. Os preços dos produtos básicos variam ao sabor do mercado, enquanto os preços e a capacidade de produção de aviões não mudam da noite para o dia", explica. Calçado e celular recuam Sobre os itens que desapareceram do ranking dos dez mais vendidos nos últimos sete anos, Ribeiro acredita que as exportações de celulares devem manter a tendência de baixa, enquanto os calçados definitivamente perderam espaço em meio a problemas com o câmbio e com a concorrência chinesa, além de problemas estruturais do setor calçadista brasileiro. "A diferenciação é o caminho para a recuperação. Isso demanda investimentos e tempo para ganhar corpo". Ele aponta ainda a tendência de recuperação de posições no caso da celulose e dos semimanufaturados de ferro e aço. Por outro lado, fala da possibilidade de desaceleração dos embarques de automóveis e café, que mesmo assim, continuarão sendo importantes produtos da pauta brasileira. (C.B.G. e S.C. - Gazeta Mercantil)