Goiaba avança na capital do figo
Os altos custos de produção e a fragilidade do figo levam produtores a buscar alternativas à fruta em Valinhos
Mesmo depois das vendas do último fim de semana, o primeiro da Festa do Figo , na sua 58ª edição, que chegou a 45 toneladas de figo, os produtores reclamam. Do preço, que cai como ocorre todo em toda safra. E das chuvas, que caíram fortes em dezembro, prejudicando a aparência da fruta. A goiaba tornou-se, assim, a mais nova rainha da festa.
O figo roxo é, há 50 anos, base da riqueza de Valinhos, cidade com 92 mil habitantes, distante 86 quilômetros de São Paulo. Com problemas persistentes na produção, os fruticultores tradicionais estão abrindo espaço para a goiaba, mais rentável, e levando o figo para os municípios vizinhos, para áreas menos valorizadas, em geral nas encostas. 'Valinhos ainda vai virar terra da goiaba', prevê a produtora Geni Aparecida Catelan.
Ela trocou o figo pela goiaba há 18 anos. Tem 560 pés em sua propriedade, que rendem de 15 mil a 20 mil caixas por ano. 'A gente se criou e viveu do figo. Mas hoje a goiaba compensa mais. Dá trabalho, mas é menos delicada', afirma. No auge da safra, a caixa com 9 a 15 frutas sai por R$ 1,50, preço considerado baixo. Mas na festa chega a R$ 6.
COMPLICADO E CARO
Prata da casa, a fruta que fez Valinhos ficar conhecida como a 'capital do figo roxo', está plantada em 274 hectares, de onde 242 produtores colhem 6.300 toneladas. A goiaba ocupa 438,4 hectares e produz 11.200 toneladas. As razões passam pelo sistema produtivo do figo, complicado e caro. E pelas características da fruta, muito frágil.
José Ramos, 81 anos, foi criado entre as fileiras de figo do sítio de seu pai, Manoel. Aos 13 anos já saía com a bomba pulverizadora nas costas. 'Nossa fruta ganhou primeiro lugar nas Festas do Figo de 1951 a 1955. Hoje, embora dê para colher figo o ano todo, não rende tanto', afirma. Ramos tem 2,4 hectares com 3 mil pés da fruta e colhe 5,2 caixas por planta, produtividade abaixo da média, estimada em 7 caixas pela Casa da Agricultura. Em 2006 vendeu a caixa (18 frutas) entre R$ 2 e R$ 5. Na festa, custa R$ 5.
Segundo o coordenador da Casa da Agricultura de Valinhos, Henrique Conti, o número de produtores de figo ainda é maior do que os de goiaba, cultivada por 115 agricultores. 'A produção de figo até cresceu de três anos para cá, com a volta de alguns produtores que haviam migrado para a goiaba, mas, ainda assim, a safra de goiaba é maior', diz.
PÉS NOVOS
Em 2005 foram plantados 35 mil pés de figo novos no Estado, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola, mas mesmo assim, a cultura, com 509.190 pés, ainda é menor do que era em 2001, quando era representada por 560.130 pés.
Para incentivar os produtores, técnicos da Secretaria de Agricultura paulista idealizaram um galpão de agronegócios, no qual o produtor colocaria sua produção e a venderia a atacadistas. A idéia ainda não saiu do papel e, por enquanto, a solução foi montar um sindicato, que compra insumos em grande quantidade e a preços mais baixos e depois repassa aos agricultores associados.
O produtor Orivaldo Percequitto, 67 anos, produz de 8 mil a 10 mil caixas de figo (com 24 frutos por caixa) a cada safra. Segundo ele, o gasto com o trato dos 2 mil pés variou entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por ano nos últimos três anos.
Assim como a maioria dos pequenos produtores da cidade, vende toda a produção no mercado doméstico e não tem acesso às exportações. 'Se compensa? Ah, a gente vai vivendo disso. No Natal vendi caixa de figo por R$ 5. Mas durante o ano cheguei a pegar R$ 2. É uma luta.'
INFORMAÇÕES: Circular Técnica 35, Embrapa Clima
Temperado, tel. (0--53) 3275-8199