Ceagesp aposta em sinergia e parcerias, e quer seguir estatal
"As Ceasas se consolidaram pelas forças do mercado e são suas principais fontes de informação", afirma Cajueiro
Se tivesse tempo, o economista Francisco José Vaz de Mello Cajueiro passaria facilmente uma tarde inteira a discorrer sobre a importância para o país de a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) permanecer estatal.
Desde 1969, quando foi criada a partir da união de duas companhias mantidas pelo governo do Estado, é assim. E para Cajueiro, que há um ano e meio preside a Ceagesp - e que há três décadas acompanha a evolução da rede de abastecimento de alimentos no país -, trata-se da única forma de a empresa ocupar a posição que merece nesse mapa.
Se no primeiro mandato do presidente Lula o principal objetivo da Ceagesp foi mostrar resultados para ser excluída do Programa Nacional de Desestatização (PND) - no qual entrou em 1997, após sua federalização -, neste início de segundo mandato, com a privatização ainda indesejada e indefinida, o foco está em modernização, integração e expansão, com investimentos diretos e parcerias com a iniciativa privada.
"Desde 2003, a Ceagesp e todas as principais centrais de abastecimento do país [as chamadas Ceasas] vêm crescendo permanentemente, em volumes de vendas e financeiro. Em 2006, tivemos o maior crescimento dos últimos 15 anos", diz Cajueiro. Segundo a estatal, só no entreposto da capital paulista, encravado no bairro de Vila Leopoldina, na zona oeste da cidade, o volume de produtos agropecuários comercializado alcançou o recorde de 2,957 milhões de toneladas em 2006, 1,5% mais que em 2005 (2,913 milhões, maior patamar até então). Na comparação, o volume financeiro da comercialização aumentou 5%, para R$ 3,185 bilhões.
O impacto desse avanço nas contas da estatal foi positivo, uma vez que parte de sua receita decorre de taxas cobradas pelo espaço cedido para a movimentação. Conforme Antonio Avante Filho, diretor administrativo e financeiro da Ceagesp, balanço preliminar indica que o faturamento da empresa - excluindo recuperação de despesas junto a permissionários e dividido, a grosso modo, entre entrepostagem (75%) e armazenagem (25%) - alcançou R$ 56 milhões em 2006, ante R$ 55,2 milhões em 2005 e R$ 54 milhões em 2004. A expectativa é que o resultado operacional tenha voltado ao azul no ano passado, depois de um prejuízo acumulado de quase R$ 30 milhões durante o biênio anterior.
Avante informa que o endividamento da companhia, em grande parte composto por impostos, está renegociado, mas admite que ainda há um grande passivo trabalhista herdado da federalização que limita as ações. "Segundo contrato entre o Estado e a União, temos contas a receber de R$ 30 milhões do Estado. Como não recebemos, muitas vezes, por decisões judiciais, temos que cobrir partes desse passivo. É uma sangria que afeta os investimentos".
Com isso, dos R$ 30 milhões que a Ceagesp calculava investir em 2007, apenas R$ 14 milhões deverão ser de fato aplicados, dependendo da geração de caixa. Cerca de 60% dos recursos serão gastos em melhorias na entrepostagem na estação paulistana e nas 11 centrais espalhadas pelo interior do Estado, com ênfase em melhorias de pavilhões, automatização de portarias e venda de pescados.
No ano passado, as 11 centrais do interior movimentaram, no total, 653,9 mil toneladas de produtos, ou R$ 623,3 milhões, com crescimento pouco superior a 1% em relação a 2005. "Na capital e no interior, foram agregados volumes novos, as importações cresceram [sobretudo de pera, maçã, pêssego e uva] em razão do câmbio e a produtividade aumentou", diz Flávio Luís Godas, chefe da seção de economia e desenvolvimento da Ceagesp.
Para o presidente Cajueiro, o futuro estatal da empresa passa pela real integração entre as centrais paulistas de abastecimento e destas com as mais de 50 estruturas em outros Estados - quatro construídas no governo Lula. Daí, afirma, a importância do Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro (Prohort), lançado em 2005 e coordenado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Segundo a Conab, o Prohort é uma retomada na gestão das Ceasas pelo governo federal após a "desintegração do Sistema Nacional de Centrais de Abastecimento (Sinac)" - responsável, até meados dos anos 80, pela política nacional para a área. "As Ceasas hoje estão informatizadas e é possível integrá-las para obtermos um fluxo melhor. Elas se consolidaram pelas forças do mercado, e hoje são suas principais fontes de informação", afirma Cajueiro. Ao todo, diz, as centrais movimentam mais de R$ 13 bilhões por ano.
Cajueiro informa que o Prohort está em fase de padronização, inclusive de termos - "mandioca ou macaxeira?" - e que, depois de maduro, poderá impulsionar a agricultura familiar principalmente por estimular a padronização da produção hortícola, dominada por pequenos agricultores.
Se na entrepostagem a palavra de ordem é integração, na armazenagem as esperanças estão na boa fase do segmento sucroalcooleiro. A Ceagesp conta com 43 armazéns, e Cajueiro garante que o mercado já "descobriu" esse braço logístico que é importante inclusive para o escoamento da produção de grãos do Centro-Oeste por ferrovia. "Podemos crescer, mas também aqui a indefinição em torno da desestatização engessa nossos planos", afirma.
Esses planos também envolvem a ocupação de novas áreas em São Paulo - sem abrir mão da estrutura da capital, que tem um número cada vez maior de vizinhos insatisfeitos - e já começam a embalar o que Cajueiro chama de "Ceasas do futuro". Estas contariam com unidades próprias de processamento de alimentos para agregar valor à atividade.