Pequeno cafeicultor exporta para os EUA

01/02/2007

Pequeno cafeicultor exporta para os EUA

 

O pequeno cafeicultor Gildásio Rodrigues, 39 anos, finalmente vai poder realizar um antigo sonho: vender o produto colhido em suas terras para o exigente e restrito mercado americano. Isso tudo sem precisar de atravessador e a um preço mínimo de US$ 160 a saca de 60 kg, equivalente a R$ 339. Se o preço aumentar o mercado americano segue a tendência e paga mais e, se cair, o valor mínimo de US$ 160 é mantido. Rodrigues faz parte de um grupo de agricultores familiares do Planalto de Conquista que passaram pelo processo de discussão no com o representante da TransFair USA. A entidade é uma organização sem fins lucrativos que articula o comércio justo nos Estados Unidos.

A Transfair USA é membro efetivo da FLO (Fairtrade Labelling Organizations International), conglomerado de 20 organizações e responsável em certificar e conferir o selo para autenticar todo produto do comércio justo no mundo.

A primeira partida do café deve ocorrer ainda este ano, com previsão de embarque de 10 mil sacas.
Além do Planalto de Conquista, a Transfair USA vai viabilizar a exportação do café produzido nos municípios de Seabra, Ibicoara, Bonito, Piatã e Rio de Contas, na Chapada Diamantina.

Enquanto caminha pelas “ruas” cercadas de cafezais na fazenda Rio dos Porcos, a 12 km de Barra do Choça (542 km de Salvador), Rodrigues faz as contas de quanto deve colher nesta safra. “Aqui nós temos 10 mil covas de café, então deve dar umas 140 sacas”.

Os cafezais carregados, com grãos verdes e viçosos dão o sinal de que a previsão pode se concretizar naquela roça de 63 hectares.

Privilegiada pela altitude, a mais de 900 metros acima do nível do mar, a região também é conhecida pelo “café gigante”, cujas árvores atingem até 4 metros de altura.“Aqui nós temos tudo, mas faltava incentivo e preço bom”, conta Rodrigues. Financiamento mesmo só aconteceu em 1974, por meio de recursos do Banco do Brasil.

“Eu tinha sete anos de idade e, de lá pra cá, o café só vem caindo de preço. Hoje eles querem pagar, no máximo, R$ 250 a saca”, salienta o produtor, agradecendo pelas recentes mudanças.

MAIS SEGURANÇA – Para o representante da TransFair, Miguel Zamora, o interesse demonstrado pelos cafeicultores superou as expectativas, apesar de o processo ser um modelo novo na Bahia. “O preço justo dá uma segurança ao produtor, independentemente do mercado. Também permite um conhecimento melhor do mercado, uma aproximação mais próximo com o comprador”.

O encontro dos produtores com a Transfair foi mediado pela Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Vitória da Conquista e a Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia (Coopasub).

“Os produtores estão livres das oscilações de preço e isentos dos custos de certificação do café”, destacou o presidente da cooperativa, Izaltiene Rodrigues.

“O principal objetivo é driblar o comércio tradicional do café, onde os produtores são explorados e ele sempre acaba perdendo. Quando o preço está alto quem ganha mais são os comerciantes e quando baixa, os custos sobram para quem produz”, esclarece.

“Além disso afastamos o intermediário, que compra o produto ainda em floração a umpreço que não chega a 50% do valor de mercado e que não cobre os custos de produção”, acrescenta ele.

No preço justo a venda é concretizada e o pagamento é antecipado.

Chega antes da entrega do café nos Estados Unidos. A compra vai beneficiar agricultores familiares de Barra do Choça, Nova Canaã, Vitória da Conquista, Planalto, Encruzilhada, Poções e Ribeirão do Largo. São camponeses que, em sua maioria, possuem uma área pequena, de até dois hectares, conforme reforça o representante da Secretaria de Agricultura de Conquista, Noeci Salgado.

“Juntos, formamos uma parceria nesses municípios da região para facilitar a organização dos agricultores familiares, apresentando a experiência de Conquista e aproximando técnicos estagiários do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) aos produtores para ajudá-los em sua organização e, principalmente, na produção de café de qualidade”, completou Salgado.

O trabalho dos técnicos também vai possibilitar a transição das lavouras convencionais para as orgânicas, cujo cafés são mais bem aceitos pelos cadastrados da Transfair em mais de 50 países.

JUSCELINO SOUZA