Biodiesel dá novo fôlego à Chapada

22/02/2007

Biodiesel dá novo fôlego à Chapada

O pequeno município do Iraquara, localizado na Chapada Diamantina, a 464 km de Salvador, foi destaque de primeira página nos principais jornais do País na semana passada. Pela primeira vez, um presidente da República visitava a cidade, até então conhecida apenas pelas grutas, que atraem turistas do mundo inteiro. Toda atenção recebida pela pequena Iraquara é por conta da inauguração da fábrica da Brasil Ecodiesel no território do município. Trata-se da maior planta de produção do combustível em operação nas Américas, com capacidade alocada para esmagar cerca de 800 toneladas diárias de mamona.

A estratégia da companhia é diversificar as matérias-primas em uso na planta iraquarense, com a meta de produzir o biodiesel com oleaginosas como girassol, pinhão manso e soja. A perspectiva trouxe fôlego novo à economia da Chapada, principalmente no que se refere à produção das oleaginosas.

Apenas em Iraquara, a expectativa é que a área plantada de mamona salte dos 2,7 mil hectares atuais para cerca de 6 mil hectares apenas nos próximos dois anos.

Apesar de ser beneficiada por incentivos fiscais estaduais e municipais, que podem chegar a descontos de até 90% nos valores dos tributos, a Brasil Ecodiesel deve representar um impacto de 25% na arrecadação de Iraquara, que atualmente apura cerca de R$ 12 milhões ao ano, de acordo com a Prefeitura local.

EUFORIA – Uma espécie de euforia tomou conta dos proprietários da terrenos vizinhos à fábrica. A Prefeitura calcula que os lotes mais próximos à unidade já registram valorização de até 1.000%. O aumento de preços vem da perspectiva de atração de empresas de alimentação animal, que poderiam ingressar na economia local de olho na fartura de matérias-primas para ração, representadas por subprodutos originados pelas operações da fábrica, o que compreende tortas, principalmente, de soja e girassol.

Contudo, o espraiamento dos benefícios da cadeia de biodiesel na Chapada ainda tem alguns obstáculos pela frente. Alguns dos principais municípios de economia agrícola da região, como Ibicoara, Bonito e Iraquara, não constam do zoneamento agrícola de risco climático. O coordenadortécnico da coordenação-geral do zoneamento agropecuário do Ministério da Agricultura, Ronir Carneiro, explica que zoneamento é uma orientação para o acesso ao crédito de custeio agrícola, e pré-requisito básico para entrada no Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária), que, na prática, significa um seguro contra quebra de safras ocasionadas por fatores climáticos, e tem como objetivo evitar inadimplência de empréstimos rurais.

“Os bancos tendem a não financiar quando a área plantada pelo agricultor não está indicada no zoneamento”, explica Carneiro. A Associação de Produtores Rurais da Chapada Diamantina (Apac) prevê expansão das áreas plantadas de oleaginosas na região. Os investimentos vão muito além da mamona.

O pinhão manso é tendência de mercado, algo percebido pelos proprietários da Fazenda Cajazeira, no município de Wagner – também na Chapada.

Na propriedade há uma área experimental para o cultivo do pinhão manso. Entre as vantagens do pinhão está a resistência, mesmo às piores condições de plantio, além do potencial nutritivo da torta, que pode ser usada como insumo básico para adubo orgânico e fer tilizante.

O supervisor da Coofap (Cooperativa de Produção e Comercialização da Agricultura Familiar da Bahia), José Antônio Dourado, avalia o pinhão manso como perspectiva de mercado para um futuro.

Ele observa que a principal vantagem da oleaginosa é o ciclo de vida útil da planta, que pode alcançar até 50 anos, com alta capacidade de extração do biodiesel. “A tendência é que o plantio seja consorciado, entre a mamona e o pinhão manso. Uma variedade não elimina a outra”, avalia Dourado.

O mercado se movimenta em torno do biodiesel por conta do estímulo à inserção do combustível na matriz energética do País. A partir do ano que vem, será adicionado 2% de biodiesel ao diesel comum, com a meta de que a proporção suba para 5% em 2010. O motorista sequer sentirá a diferença, pois os motores resistem a até 30% de biodiesel sem necessidade de adaptação.