Etanol brasileiro ganha apoio da mídia dos EUA

15/03/2007

Etanol brasileiro ganha apoio da mídia dos EUA

O jornalista Holman W. Jenkins Jr. criticou ontem, em artigo publicado no The Wall Street Journal, a concessão de subsídios dos Estados Unidos aos produtores do milho, que serve como matéria-prima para a fabricação do etanol naquele país. O artigo sinaliza que o mais importante a se extrair da vista de George Bush à América Latina, encerrada ontem no México, pode ser a expansão do plantio da cana-de-açúcar pelo continente para a produção de etanol.
Mas, aqui no Brasil, os críticos da parceria anunciada entre os dois presidentes consideram que o País vai se tornar uma nova colônia agrícola. “O governo tinha que lançar mão de instrumentos que garantissem o controle nacional sobre a produção e a venda do etanol”, afirma o físico e engenheiro baiano José Walter Bautista Vidal, professor da Universidade de Brasília (UnB), para quem o acordo nos termos atuais só serve aos interesses dos Estados Unidos.
Vidal acredita que o Brasil corre o risco de reviver com o etanol o mesmo processo experimentado em relação à borracha e ao café, duas culturas em que o País tinha supremacia e que se tornaram lucrativas fontes de renda para as nações européias.
“O Brasil não pode tratar o etanol como uma commodity. É um tema de interesse militar, como é para os Estados Unidos o petróleo.
Bush deixou claro, aqui no Brasil, que esse é um assunto de segurança nacional”, arremata.
Desde que Bush desembarcou em São Paulo, na semana passada, com a proposta de criar uma associação mundial de produtores de etanol, à semelhança da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a visita ao Brasil se tornou um assunto explosivo na maior potência do planeta, que já começa a discutir quem vai suceder Bush na Casa Branca no ano que vem.

PROTECIONISMO – Umdos principais postulantes ao cargo, o senador democrata Barack Obama, declarou-se contra o acordo e ponderou que o etanol de milho cumpre uma função social importante em comunidades rurais. Obama representa o Estado de Illinois, segundo maior produtor de milho dos Estados Unidos.
Charles Grassley, senador republicano de Iowa, maior produtor de milho, declarou: “Nenhum socialista barato como Lula vai me dizer que somos protecionistas”. O próprio Bush descartou a possibilidade de que o congresso americano, dominado pela oposição democrata, reduzisse as tarifas sobre importação do etanol brasileiro, como pleiteia Lula. Os Estados Unidos, disse Bush, estão cada vez mais protecionistas.
Ontem, uma grande força às demandas da diplomacia brasileira veio da conceituada publicação de negócios The Wall Street Journal. O artigo de Jenkins começa com uma ironia, afirmando que, na semana passada, Bush e Lula deram um golpe duro nas forças da intolerância, do obscurantismo e do paroquialismo.
Para então dizer que está se referindo ao lobby dos fazendeiros americanos e não à “amálgama de países hostis e loucos islâmicos”, que presumivelmente se beneficiam do vício que os americanos têm em petróleo.
O artigo afirma que membros da administração Bush tentam acalmar os fazendeiros dizendo que o acordo entre os dois países não implica eliminação da tarifa de US$ 0,54 que o Brasil paga para cada galão de etanol que exporta. E assinala que, sem subsídios oficiais, nenuma das 111 refinarias de etanol de milho do país seria rentáve l.
“Washington quer simplesmente ajudar o Brasil a exportar sua tecnologia para que outros países se tornem produtores de etanol a baixo custo”, avalia o colunista do Wall Street Journal.
“Sem dúvida, os Estados Unidos vão querer extrair o máximo de lucro.
É a lógica de um império global”, analisa o cientista político da Ufba Carlos Milani. “Mas eu acredito na diplomacia brasileira, que não age de forma entreguista”, completa o professor.

GILSON JORGE