Safra recorde agita Passarela da Soja

19/03/2007

Safra recorde agita Passarela da Soja

O evento, realizado em São Desidério, no oste do Estado, neste final de semana, atraiu pecuaristas, técnicos, pesquisadores e líderes políticos

Os produtores de grãos do cerrado da Bahia, localizado no extremo oeste do Estado, estão motivados com a perspectiva de uma safra recorde de grãos, que deve atingir 5,058 milhões de toneladas, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento ( Conab).

Essa animação repercutiu na nona edição da Passarela da Soja, realizada sábado no distrito de Roda Velha, município de São Desidério, que contou com a presença maciça de agropecuaristas, técnicos e pesquisadores, bem como um grande número de lideranças políticas, atraídas pela presença do governador Jaques Wagner e comitiva.

No evento, que registrou a participação de 1,6 mil pessoas, foram apresentadas tendências e tecnologias sobre novas cultivares, melhoramento genético no cerrado e pragas na cultura da soja, com a divulgação dos resultados de trabalhos de pesquisa e extensão rural da Fundação Bahia (uma entidade voltada para a pesquisa agrícola na região) e a Embrapa Soja.

Os transgênicos foram destaque este ano, com a apresentação de 15 variedades testadas no cerrado baiano. Na opinião do sojicultor Marcos Greeger, a opção de produtos modificados geneticamente e adaptados para as condições de solo e clima da região “é muito importante para a classe, que precisa acompanhar as novas tendências mundiais”.

A soja (plantada em 850 mil hectares e que está em fase inicial de colheita) lidera a produção regional com a estimativa de produzir 2,248 milhões de toneladas, de acordo com a Conab. Este número é 12,8% superior ao de 2006.

O aumento da produtividade em 15,7% sobre a safra passada é apontado como responsável pelo incremento da produção, considerando que a produtividade média é de 2.649 quilos por hectare. Esse desempenho é resultado principalmente do período chuvoso que favoreceu o crescimento das plantas e o enchimento dos grãos.

INFRA-ESTRUTURA — Secretário de Agricultura de São Desidério, município que detém o status de maior produtor brasileiro de algodão e o maior produtor de soja do Norte e Nordeste, Genivaldo Assis diz que, apesar deste desempenho favorável, a região ainda está carente de investimentos estaduais para obras de infra-estrutura, como o melhoramento das condições logísticas para o escoamento da produção e para a entrada de insumos nas fazendas, dando condições de trafegabilidade às estradas vicinais.

Para o presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Humberto Santa Cruz Filho, além das estradas vicinais e das BRs, a construção da ferrovia oeste/leste, ligando a região produtora aos portos do Atlântico, é fundamental para o desenvolvimento do agronegócio regional.

Sobre o sistema intermodal (que conjuga rodovias, hidrovias e ferrovias — sugerido pelo governador Jaques Wagner em suas duas últimas visitas à região), “ainda precisamos conversar mais, porque a gente não acha que é a solução ideal”, ressalta Santa Cruz, enfatizando que o sistema é prejudicado, pois em cada transbordo há desperdício de produto.

Durante a Passarela da Soja, o governador Jaques Wagner anunciou para hoje o início da recuperação dos 232 km do Anel da Soja, que compreende as BAs 459 e 460, ligando parte da região produtora às BRs 242/020. Ele também sinalizou positivamente para a construção da ferrovia oeste/leste, afirmando que já liberou R$ 22 milhões para a contratação do projeto executivo.

A ferrovia, que deve ligar o município de Luís Eduardo Magalhães a Brumado, tem um traçado de 525 km. Para escoar a safra além de Brumado, os produtores do oeste se aproveitarão da estrutura já existente para o escoamento de minérios produzidos na região.

Grãos rendem R$ 10 bilhões a mais

A virada na agricultura de grãos começa a injetar R$ 54,9 bilhões na economia das cidades do interior do País a partir deste mês. A renda do agricultor não é recorde, mas são quase R$ 10 bilhões a mais do que no ano anterior. Isso já provoca crescimento de até 50% nas vendas de veículos, móveis e eletrodomésticos neste início de ano em relação a 2006. Também há antecipação da compra de fertilizantes para o plantio da safra de inverno.

“A receita da colheita deste ano marca o fim do ciclo de baixa da agricultura de grãos”, afirma o diretor da RC Consultores, Fabio Silveira. Nas suas contas, entre milho, soja, arroz, feijão, algodão, trigo e outros grãos, a colheita deste ano deve somar 126 milhões de toneladas, 7,3% a mais do que em 2006. Enquanto isso, o crescimento da receita é mais expressivo, com alta de 21% ante a safra passada, que foi a segunda consecutiva de retração na renda. As projeções levam em consideração dados de produção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e os preços coletados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A recuperação da receita deste ano foi comandada pela dobradinha milho/soja. Depois que os Estados Unidos deixaram claro que a prioridade é destinar a sua safra de milho para produção de etanol, os preços do milho e da soja dispararam no mercado internacional e impulsionaram as cotações domésticas, observa Silveira.

Ele ressalta que o cenário tornou-se promissor não só para este ano, mas também para os próximos. Neste mês, por exemplo, a saca do milho no mercado interno acumula alta de 41,3% ante o mesmo período de 2006. Na soja, o acréscimo é de quase 22% no mesmo período. É exatamente por causa desse cenário que a safra urbana de bons negócios já começou nas regiões que têm como atividade principal o cultivo soja e milho.

 

MIRIAM HERMS