Aves são monitoradas para evitar contágio
As aves migratórias de passagem pelo litoral da Bahia estão sendo examinadas por técnicos do Ministério da Saúde em um banco de areia a dois quilômetros da costa de Cacha Pregos, na Ilha de Itaparica.
Eles monitoram as doenças que podem ser transmitidas pelas aves, como a gripe aviária e a febre do Nilo Ocidental. O trabalho começou na noite de quinta-feira e segue até amanhã .
Sob tendas armadas no areal, o trabalho se inicia ao anoitecer, quando são preparados os equipamentos para examinar gaivotas e massaricos que pousam no local, na enchente da maré, em busca de descanso, depois de passarem o dia todo pescando. Situado a 13 graus sul e 0,38 oeste, o banco, que é chamado de Ilha do Amor pelos nativos de Cacha Pregos, fica na extremidade da ilha, onde já não se pode avistar Salvador e o vento bate forte.
O trabalho segue madrugada adentro, até o amanhecer. As aves são capturadas em redes armadas na beira do mar e dali são levadas para a tenda, onde são medidas, pesadas, identificadas e marcadas com anel em uma das pernas. Em seguida, são coletadas amostras de sangue para exames no laboratório do Instituto Evandro Chagas, no Pará. Depois disso, as aves são soltas.
O monitoramento das doenças nas aves migratórias que freqüentam o litoral brasileiro começou em 2002 e ocorre de setembro a abril, quando as aves migram da América do Norte e da Europa para o litoral da América do Sul, seguindo cardumes de peixes. De acordo com o coordenador do Programa Estruturação da Vigilância da Febre do Nilo Ocidental e Gripe Aviária, o médico veterinário Francisco Anilton Alves Araújo, o trabalho é feito desde o litoral do Amapá até o do Rio Grande do Sul. Cerca de seis mil aves foram examinadas nas 15 campanhas já feitas em Mangue Seco, Cacha Pregos, Nova Viçosa e também na região das lagoas onde fica a Cetrel, em Camaçari.
Segundo Anilton, nenhuma ave foi até então encontrada com o vírus da gripe aviária, do tipo H5N1, que é o mais letal para as aves e que já foi encontrado em aves da Europa e da Ásia. Nas aves encontradas no País, foram identificados vírus da gripe aviária de tipos menos potentes, como o H5N4, H5N3 e H5N2. A gripe pode contagiar humanos pelo contato com as fezes das aves. No mundo, já ocorreram 250 casos do vírus H5N1, metade resultando em morte, principalmente na Ásia.
Na Europa, já ocorreram casos em aves e ainda não foi registrado nenhum caso nas Américas.
Semelhança com a gripe espanhola
Por causa de mutações do vírus, pode ocorrer a transmissão entre humanos, o que é a maior preocupação das autoridades de saúde em todo o mundo, segundo Anilton. Em humanos, a gripe aviária é altamente letal e, se vier a ser transmitida entre as pessoas, pode levar a uma pandemia, que é o alastramento do contágio, como ocorreu com a gripe espanhola no início do século passado e também chegou ao Brasil. Segundo ele, não há como impedir a mutação dos genes do vírus, mas o que pode ser feito são medidas preventivas para diagnóstico precoce, além do treinamento de médicos e estruturação de hospitais, o que vem sendo feito não só no Brasil, mas em todo o mundo.
CAVALO S – A morte de 16 cavalos, em janeiro, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, está sob investigação dos órgãos federal, estadual e municipal de saúde. No início desta semana, a equipe coordenada pelo médico veterinário Francisco Anilton Araújo, do Programa de Vigilância da Gripe Aviária e da Febre do Nilo Ocidental, do Ministério da Saúde, coletou sangue de aves migratórias nas lagoas onde fica a Cetrel. As aves migratórias são portadoras dos vírus dessas doenças, que podem ser letais para outros animais, como humanos e cavalos.
Foram feitas coletas de sangue em 200 patos das lagoas da Cetrel e em 300 cavalos.
Também estão em análise partes dos cérebros dos cavalos mortos. Os exames estão sendo feitos nos laboratórios dos institutos Evandro Chagas, no Pará, e Pasteur, em São Paulo.
A suspeita é que os cavalos tenham sido vítimas da febre do Nilo, doença que foi identificada pela primeira vez em uma mulher em Uganda, nas margens do Rio Nilo, na África, em 1937. Antes de morrer, os cavalos apresentaram quadro de surto de meningite neurológica, com andar cambaleante e em círculos até a paralisação total, que, segundo Anilton, são os mesmos sintomas da febre do Nilo ocidental e da raiva. Ele disse já ter sido descartada a possibilidade de raiva nos animais que morreram.
Também preocupante, segundo ele, é o fato de já terem sido registrados seis casos de meningites virais em humanos, neste ano, em Camaçari. “Em todo o ano passado, foram nove casos. Pode ser que haja alguma correlação com a febre do Nilo”, disse ele.
MAIZA DE ANDRADE