Bahia tem 50% das terras semi-áridas do Brasil

23/03/2007

Bahia tem 50% das terras semi-áridas do Brasil

A desertificação é um grande problema ambiental, que se relaciona diretamente com a gestão e o uso da água. No momento, mais de 50% das terras do planeta são áridas ou semiaacute;ridas. A ação da natureza e a pressão antrópica contribuem para o processo de desertificação. As conseqüências desencadeadas por atividades humanas equivocadas sobre os ecossistemas são as maiores causas. As práticas agrícolas errôneas e o desmatamento, além da impunidade em torno de crimes ambientais, são fatores que impedem a contenção desse processo.

Ainda com base em informações alarmantes veiculadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 1 bilhão de pessoas estão ameaçadas pela desertificação. Onze por cento das terras em processo de desertificação estão no Brasil, na região do semiaacute;rido, e 50% dessas terras estão no estado da Bahia, No semiaacute;rido da Bahia vivem aproximadamente 7 milhões de habitantes.

A área do semiaacute;rido do Brasil foi delimitada pela Empresa Brasileira de Pesquisa. Para definir a área, levou-se em conta o conjunto de unidades geoambientais. Isso envolve um entendimento não só do clima, como da vegetação e das suas variações, do relevo e das potencialidades hídricas do campo pesquisado, o que resultou na determinação de todo o quadro natural do semiaacute;rido do país, que abrange aproximadamente 850 mil km².

O BIOMA C A AT I N G A “Um conjunto, em escala macro, de diversos ecossistemas e que apresentam pontos de convergência é denominado bioma. No Brasil temos seis principais porções, nomeadas de acordo com o tipo de vegetação predominante: Mata Atlântica, pantanal, cerrado, Amazônia, caatinga e pampa. Na Bahia, temos o predomino de três: cerrado, Mata Atlântica e caatinga.

O bioma caatinga abrange a maior parte da extensão territorial do estado, mais de 66%. Na caatinga encontramos uma vegetação pouco exuberante, árvores com troncos retorcidos, plantas que, como o cactos, armazenam água e, ainda, formações florestais importantes e mais de 2 mil espécies de animais. A ararinha-azul é uma das mais famosas, encontrada, por exemplo, no Raso da Catarina. Já a agricultura da região é boa parte voltada para a subsistência. As tecnologias agrícolas utilizadas não são apropriadas e enfraquecem o solo, as queimadas são uma prática usual.

BIODIVERSIDADE ”Trata-se de uma região que possui grande biodiversidade e um ecossistema frágil, vulnerável particularmente à ação antrópica, e que possui riscos extremos de desertificação”, explica Milson Batista, biólogo e mestre pela USP. Ele militou muito tempo na causa ecológica no estado da Bahia, atuou no grupo de recomposição ambiental Germen e se tornou pesquisador e especialista em biodiversidade. Seus trabalhos acadêmicos lhe deram subsídios para falar particularmente sobre a Caatinga e o clima semiaacute;rido. Natural do município de Tucano, ex-morador de um distrito chamado de Creguenhem, ele conhece a realidade da região por diversos aspectos, foi inclusive consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

“A caatinga está perdendo grande parte de sua cobertura, a região possui processos regenerativos lentos e longos, possui solos arenosos e, em contrapartida, possui a maior densidade populacional do mundo, em regiões semiaacute;ridas. Existe uma convivência histórica do ser humano com as adversidades naturais nestsa região: comunidades tradicionais, grupos indígenas, populações ribeirinhas e o meio urbano, que vêm criando estratégias de resistência e convivência.” Atualmente diretor de Biodiversidade da Secretaria de Meio-Ambiente e Recursos Hídricos (SMURH), Batista acredita que é preciso conhecer melhor as práticas dessas populações, além de dialogar e consolidar políticas públicas sustentáveis.

“Não dá para erguer um único projeto de gestão, pois é indispensável levar em contas as particularidades das microrregiões, o foco deve estar em torno das necessidades humanas e suas expectativas”, defende o biólogo. “Só através do diálogo e de um profundo estudo analisando vários aspectos é possível prever riscos e impactos das medidas e tecnologias adotadas e, assim, consolidar uma política inclusiva”, diz.

Captação da água de chuvas, construção de cisternas, tecnologias que dêem acesso aos recursos hídricos subterrâneos são alguns dos caminhos para garantir o abastecimento da população. Mas Milson Batista defende uma mudança de perspectiva, “a água não é um produto, é um recurso da natureza, que é indispensável para a vida”. As políticas públicas, em sua visão, devem criar condições para o desenvolvimento em bases sustentáveis.