Irrigação artesanal
Equipamentos de irrigação feitos com material descartado, que teria o lixo como destino, fáceis de manejar e que dispensam o uso de energia elétrica, têm ajudado o pequeno produtor rural Abelmanto Carneiro de Oliveira, 34 anos, em sua propriedade, de 20 tarefas, na Fazenda Pau de Colher, na localidade de Mocambo, em Riachão do Jacuípe, região sisaleira.
Abel, como ele é conhecido, utiliza tubos de canetas esferográficas, hastes (de pirulitos) e vasilhas (garrafa) plásticas para construir aspersores, usados para irrigação por gotejamento. Ele criou também uma bomba manual de captação de água, com dezenas de unidades produzidas e vendidas. A capacidade criativa de Abelmanto foi descoberta quando ele se inscreveu como multiplicador do Projeto Prosperar – de melhoria da qualidade de vida das famílias do Peti –, desenvolvido pela ONG Movimento de Organização Comunitária (MOC), sediada em Feira de Santana, em conjunto com os governos federal e estadual.
Após concluir o curso de multiplicador, ele se tornou professor para crianças e adolescentes da rede municipal, pelo Projeto Conhecer, Analisar e Transformar (CAT), também desenvolvido pelo MOC e a Universidade Estadual de Feira de Santana e secretarias municipais de Educação da região. As engenhocas de Abelmanto Oliveira são simples, mas funcionam a contento. Um dos aspersores consiste de uma sucessão de garrafas plásticas enfileiradas, com minúsculos furos. Elas são interligadas por tubos de borracha e recebem água e pressão da bomba manual, de sua própria lavra. Segundo o inventor, o aspersor, ideal para a irrigação de hortas, tem capacidade para lançar água em um raio de dois metros, molhando, simultaneamente quatro canteiros.
Um outro aspersor, com tubos de PVC, traz bicos feitos com hastes de canetas esferográficas e, a depender da pressão bombeada, pode irrigar áreas de até cinco metros de diâmetro. Diz o inventor que procurou desenvolver sua própria forma (tecnologia) de irrigação para compensar a falta de energia elétrica no sítio.
A horta já produziu o suficiente para repartir entre as famílias dos 19 alunos. Por estar situada em uma área baixa, a horta está inundada, devido às sucessivas chuvas na região. Mas Abel diz que o cultivo de hortaliças ficará melhor com o solo encharcado. “Na medida em que essa água for secando, a gente vai cultivando nas margens bem molhadas”, explica.
As crianças e adolescentes do CAT fazem parte de outro projeto na propriedade: “Vida do Solo”, criado em 2004, que consiste em repassar técnicas e tecnologias de convivência no semiaacute;rido, bem como de preservação do meio ambiente. Com o CAT, os meninos aprendem a manter o equilibro ecológico, fazer reflorestamento, curtume de esterco, artesanato e práticas agroecológicas. Nas 20 tarefas, que obteve por herança, Abel cria 30 cabeças de caprinos e ovinos e quatro vacas, além de 23 suínos. A preservação de parte da mata também favorece o surgimento de abelhas, e Abel e a mulher, Jacira de Oliveira, colhem mel e vendem. “Cheguei a desmatar uma baixada, vi que era besteira, e agora tento conscientizar outros produtores, mostrando na prática que funciona”, diz.
EDSON BORGES