Alimento proibido

28/03/2007

Alimento proibido

Contaminação chega à capital e peixe não pode ser consumido nas ilhas dos Frades, Maré e Bom Jesus dos Passos

A contaminação ambiental que já provocou a mortandade de 50 toneladas de peixe no recôncavo baiano chegou às ilhas dos Frades, de Maré e Bom Jesus dos Passos, todas pertencentes ao município de Salvador. Sob a recomendação do Centro de Recursos Ambientais (CRA), a Superintendência Municipal de Meio Ambiente (SMA) proibiu a pesca na região. Mesmo com a proibição, alguns pescadores, por não terem o que comer, acabam se alimentando com os peixes e mariscos, apesar do risco de contrair doenças.

O fato também acontece em cidades como Santo Amaro, que ontem teve decreto de situação de emergência homologado pelo governo estadual. Na tarde de hoje, ocorre um encontro entre representantes dos órgãos ambientais dos municípios afetados e das indústrias existentes na região da Baía de Todos Santos para decidir ações que contenham o avanço da poluição e de ajuda aos prejudicados.

Relatos de pescadores de Bom Jesus dos Passos dão conta de que os primeiros peixes mortos começaram a aparecer há cerca de 15 dias. Apesar da proibição da pesca, alguns trabalhadores do mar acabam por consumir o pescado que não conseguem vender. Há pelo menos duas ocorrências de pescadores que passaram mal e tiveram que ser atendidos nas unidades de saúde da região.

“A pesca está suspensa na região das ilhas, apesar de constatarmos que os peixes não estão morrendo naquelas águas e sim estão sendo trazidos pela correnteza”, diz o superintendente de Meio Ambiente de Salvador (SMA), Ary da Matta. De acordo com ele, o órgão tem monitorado a situação e já solicitou à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes) o envio de técnicos às três ilhas para que ocorra o cadastramento das famílias para que elas possam receber as cestas básicas.

Um levantamento feito pela Administração Regional-18 (AR-18), sediada em Bom Jesus dos Passos, já identificou 600 famílias atingidas que vivem diretamente da pesca. Este número pode chegar a 3,5 mil. “Estamos dando todo o suporte na medida do possível para os moradores. Estamos enviando aqueles que passarem mal por consumir os peixes às unidades de saúde do município”, afirma a titular da AR-18, Ilma Duarte. Ela afirma que nenhum dos marisqueiros consegue revender o que pescou. “As pessoas estão desconfiadas. Ninguém quer comprar”.

Para o presidente da Colônia de Pescadores de Frades e Bom Jesus dos Passos, Raimundo Tadeu Nunes, a situação está ficando cada vez mais crítica. “Nós não estamos trabalhando. Mas é difícil ficar esperando por ajuda. As pessoas acabam por comer o peixe contaminado”. Ele diz que o indício de que as coisas não vão nada bem é o fato de urubus também terem sido encontrados mortos na região. “Nunca vi uma coisa dessas por aqui”.

O superintendente regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Célio Costa Pinto, afirma que técnicos da área de pesca enviaram ontem à direção do órgão federal, em Brasília, o pedido de publicação de uma portaria especial instituindo o período de defeso. “A portaria deverá ser publicada até a sexta-feira e os pescadores cadastrados pelos órgãos ambientais poderão receber um seguro no valor de um salário mínimo”.

A diretora do CRA, Beth Wagner, reafirmou ontem que a causa da contaminação nas águas de Baía de Todos os Santos “é de origem química que pode ser industrial ou orgânica, em função da proliferação de algas tóxicas”. Contudo, ela afirmou que é preciso esperar o resultado do diagnóstico a ser divulgado no dia 6 de abril. Técnicos do CRA monitoram as águas contaminadas diariamente.

Ambientalistas como Telma Lobão especulam sobre um possível vazamento do gasoduto do projeto Manati da Petrobras, autorizado pelo CRA. “A rede de gás passa por toda aquela área, desde Cairu até São Francisco do Conde”, afirmou Lobão. A assessoria de comunicação da Petrobras afirmou que está colaborando com o CRA na medida do possível, e que se manifestará oficialmente a respeito das causas do acidente ambiental. Mas já antecipa que não há vazamento no gasoduto, que é monitorado diariamente.

Reunião - Beth Wagner comandará hoje, a partir das 15h, uma reunião entre os dirigentes de órgãos ambientais dos municípios afetados e representantes das indústrias localizadas na região da Baía de Todos os Santos. O objetivo é definir ações para evitar uma expansão da poluição e ajudar os pescadores e marisqueiras. O encontro acontece na sede do CRA, na cidade baixa.

FLÁVIO COSTA