Começa a distribuição de cestas básicas a pescadores e marisqueiras

29/03/2007

Começa a distribuição de cestas básicas a pescadores e marisqueiras

Governo estuda elevar ajuda para amenizar os prejuízos causados pela contaminação das águas da baía

O Governo do Estado começa hoje a distribuição de duas mil cestas básicas à população prejudicada pela contaminação das águas da Baía de Todos os Santos, responsável pela mortandade de 50 toneladas de peixe, desde o início do mês. Ontem, a fila já era grande na Colônia de Pescadores Z-16, em Saubara, onde acontecia a entrega de senhas que dão direito ao benefício.

Nos próximos dias, existe a possibilidade de elevar o número das cestas básicas, diante dos enormes prejuízos verificados por pescadores e marisqueiras de municípios como Saubara, Santo Amaro, Salinas da Margarida e São Francisco do Conde.

Nas praias da região, como Cabuçu e Bom Jesus, o quadro é bem parecido. Alguns pescadores continuam indo ao mar, enquanto outros aproveitam para fazer a manutenção dos barcos ancorados na areia e esperam o resultado do laudo técnico referente à contaminação.

Nas cidades, as equipes da Vigilância Sanitária estão desenvolvendo um trabalho educativo nas feiras, orientando os consumidores a não comprar os produtos e pedindo a colaboração dos feirantes para não vender os peixes e mariscos que podem estar contaminados. O Centro de Recursos Ambientais (CRA) também está adotando a mesma orientação junto às comunidades.

A população, por sua vez, sofre as conseqüências de não poder vender seus produtos. Em Saubara, na casa de Cátia Regina da Silva, 40 anos, os mariscos catados estão acumulados em bacias ou estocados na geladeira. Na tentativa de vendê-los, ela já levou uma parte para Feira de Santana, mas o material retornou por falta de compradores, receosos diante da contaminação.

Mesmo sabendo dos riscos para a saúde, Cátia e sua família continuam consumindo os produtos. "Ou comemos ou morremos de fome", disse ela, alegando não ter tido nenhum problema de saúde até o momento.

Para obter uma renda extra e enfrentar a crítica situação, Cátia está lavando roupa e realizando serviços domésticos. Seu marido, o pescador Antônio Honorato Pimentel, 39 anos, afirmou que nunca passou por uma situação parecida antes e que a reserva monetária da família, obtida com a pesca, está acabando.

"É justamente na Semana Santa que as pessoas procuram mais os nossos produtos e conseguimos um dinheiro a mais. Como estamos sem poder vender, o jeito é esperar para ver como vão estar as coisas até o feriado", disse.

Na fila de entrega das senhas para o benefício da cesta básica, o também pescador Armando Paulo de Souza, 55 anos, afirmou estar passando necessidade desde que os peixes começaram a ser encontrados mortos na praia. "Se não podemos vender nada, o que iremos comer, se muitas vezes nem temos farinha em casa?", questionou ele, que tem dois filhos. Para contornar a situação, Armando já catou piaçava, utilizada na fabricação de vassouras, para vender. "Quando acho comprador, dá para conseguir uns R$ 15 por dia", destacou.

Com dois filhos e quatro netos, a marisqueira Marisa Gonzales, 47 anos, relatou o seu drama. "Sempre vendi tira-gostos e mariscos na feira de Santo Amaro. Com as pessoas com medo de comprar, não dá pra viver", declarou. Casada com um pescador e sem nenhum outro tipo de renda, Marisa contou que teve de comprar carne fiado para ter o que comer em casa.

Igualmente apreensiva está dona Carmelita Sousa de Oliveira, 64 anos, marisqueira desde menina. Na fila da Colônia Z-16 de Pescadores desde as 5h, ela está sem alimentos em casa e sem nada para preparar a comida de seu filho de 22 anos, que é deficiente físico e vive numa cadeira de rodas. "Tive que pedir para a minha outra filha conseguir algum alimento pra ele", afirmou.

No outro lado da questão, ficam os consumidores, acostumados a comprar os produtos. É o caso de Edmilson Macedo Pires, 26 anos, morador de Saubara. Com a orientação de não consumir os mariscos e peixes, ele disse que é difícil lidar com a realidade. "A renda da população é muito baixa e não temos como comprar outro tipo de alimento, como carne, por causa do preço. Também temos outras contas pra pagar e somos levados a continuar comprando mariscos, mesmo sabendo do risco à saúde", explicou.

Sem caso de intoxicação

 

A Secretaria da Saúde (Sesab) vem fazendo o monitoramento para descobrir se houve algum caso de intoxicação relacionado ao consumo de peixes contaminados na Baía de Todos os Santos. O secretário da Saúde, Jorge Solla, disse que até o momento não há registro de doença vinculada ao problema.

A informação é confirmada pelo secretário de Meio Ambiente de Saubara, João Carlos dos Reis Silva: "Até agora, não tivemos problemas de intoxicação por consumo desses peixes. Estamos acompanhando diariamente e ainda não houve caso comprovado."

Mesmo em viagem ao Japão, o governador Jaques Wagner solicitou, via Casa Civil, o empenho de sua equipe para a redução dos efeitos da contaminação junto às comunidades afetadas e busca das causas do problema. Nesse sentido, além das medidas sociais já tomadas, como distribuição das cestas básicas, o Governo do Estado está esperando o resultado do laudo técnico, que deve sair até 6 de abril. O documento vai indicar se a contaminação dos peixes é de origem industrial ou biológica.

"Com esse laudo, vamos chegar às conclusões necessárias para complementar a nossa fiscalização. Assim, a parte técnica está sendo focada especificamente pelo CRA", explicou o diretor de Fiscalização do órgão, Ronaldo Martins. Desde que o CRA foi acionado, em 8 de março, está diariamente realizando a coleta de amostras de água, peixes e mariscos e fiscalizando todas as empresas que se encontram no entorno da Baía de Todos os Santos.