Desastre ambiental reduz vendas de frutos do mar

29/03/2007
Desastre ambiental reduz vendas de frutos do mar
 
Vendedores temem que contaminação prejudique o comércio de peixes e mariscos na Semana Santa
 

Vendedores de peixes e mariscos de Salvador revelaram ontem preocupação com a queda no comércio dos produtos, já registrada após a divulgação da contaminação química na Baía de Todos os Santos. O temor maior, tratado quase como certeza, é de que o desastre ambiental prejudique as vendas da Semana Santa, tido como o melhor período do ano para o setor.

Para os comerciantes, a responsabilidade pela crise que está afetando o comércio de frutos do mar em Salvador não deve ser creditada apenas à contaminação química no litoral do recôncavo. “Muita gente, inclusive das TVs e jornais da cidade, está indo a público dizer à população para não consumir mariscos e peixes, só que essas pessoas desconhecem como é o setor”, criticou o vendedor Celso Diniz, permissionário do box 28 no Mercado Municipal de Frutos do Mar, em Água de Meninos, cidade baixa.

Diniz explica que os peixes vendidos no mercado não vêm do litoral do recôncavo, e sim de estados cuja indústria pesqueira é forte, a exemplo de Ceará, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Pará. “Só 10% dos pescados vendidos aqui são da Bahia, e mesmo assim, de cidades do litoral do extremo sul, como Alcobaça. Os pescados da região atingida são pequenos e consumidos nas próprias comunidades”, explicou Diniz.

Por conta divulgação da contaminação na baía, diversos comerciantes ouvidos pelo Correio da Bahia registram queda de mais da metade no movimento diário verificado no mercado municipal. Ontem à tarde, o que se via eram balcões refrigerados cheios de produtos, com poucos clientes interessados em comprá-los. “Estamos realmente preocupados, pois estamos perto da Semana Santa e a saída está muito baixa. Nos anos passados, em dias como esse, já estávamos vendendo quase tudo e comprando mais”, lamentou o comerciante João da Lambreta, permissionário do box 36.

Os vendedores alegam também que, fora o caranguejo, os mariscos mais consumidos atualmente na cidade – sururu, siri, ostra, aratu, chumbinho e lambreta –, que comumente são oriundos das comunidades afetadas pelo desastre ambiental, agora estão sendo trazidos de Alcobaça e Valença (baixo sul baiano). “A pesca em grande parte da baía está proibida, não sai mais nada de lá, além do quê não somos loucos de vender produtos contaminados na origem. Isso aqui é um negócio sério”, desabafou Diniz.
 
O comerciante explica que, por conta do impedimento da pesca no litoral do recôncavo, os mariscos estão sendo comprados nas outras fontes a preços mais altos do que o usual – entre 10% e 20% de acréscimo. “Mas não temos nem como repassar o aumento para o cliente. Já não estamos vendendo quase nada, se o preço subir, aí é que danou-se mesmo”, destacou Diniz.

Na tarde de ontem, a diretora geral do CRA, Beth Wagner, voltou a alertar a população que não consuma pescados com origem na Baía de Todos os Santos, para evitar prováveis intoxicações alimentares. Em meio ao medo que tomou conta dos consumidores de frutos do mar em Salvador, há quem diga que a Semana Santa deste ano já está perdida. “Com tudo que aconteceu, acho mesmo que só o início do mês, já que os salários serão pagos, a gente pode tirar algum lucro. Ou, ao menos, não ter prejuízos”, resignou-se João da Lambreta, há 15 anos trabalhando no setor.

Laudo - O CRA voltou ontem a garantir que o laudo para identificar a origem da contaminação – causada ou pela ação de algas ou pela presença de companhias do setor químico e petroleiro no litoral da região – será divulgado na Sexta-feira Santa. No momento, as amostras colhidas estão sob análise de diversos laboratórios do país. Entre eles, os das universidades de São Paulo (USP), Federal da Bahia (Ufba), Federal do Rio grande do Sul (UFRS) e o do Centro de Tecnologia Industrial (Cetind), vinculado ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

O órgão ambiental assegurou ainda que vai propor a criação de um grupo de trabalho para monitorar a poluição na baía, tida como crônica antes mesmo da constatação da contaminação química que provocou a morte de mais de 50 toneladas de peixe desde 8 de março. “O último levantamento feito no litoral da região, em 2005, indicou a presença de metais pesados como cobre (nos limites de Aratu) e mercúrio (na Enseada dos Tainheiros), e de hidrocarbonetos de petróleo (nos arredores da Refinaria Landulpho Alves, em Mataripe)”, enumerou o diretor de fiscalização do CRA, Ronaldo Martins da Silva.