Peixes morrem no local onde fica passagem de gasoduto
Peixes de várias espécies, com predominância do robalo, foram coletados do mar, ontem, próximo à Ponta do Ferrolho, na saída do gasoduto de Manati, em São Francisco do Conde. O pescador Joselito Santana Azevedo, 42 anos, admiravase do tamanho dos peixes, de até quatro quilos, e de ainda estarem frescos, sinal de que tinham morrido há pouco tempo. Alguns saltavam para fora da água na tentativa de sobreviver.
A quantidade de peixes mortos ia aumentando na medida em que o saveiro Maiana afastava-se do Porto de Madre de Deus e aproximavase do Ferrolho, ao lado da Ilha das Fontes, no município de São Francisco do Conde. “Só não vê quem não quer, essa é a trilha do desastre”, afirmava o pescador, que é membro da Colônia de Pesca Z 48 de Madre de Deus. Em mais de um quilômetro de extensão, seguindo o rumo da linha do gasoduto, mais peixes eram vistos em variados estados de decomposição.
Eram parus, carapebas, pescada, bagre-amarelo e sambuia, de acordo com a identificação do pescador.
Na outra margem do mar, podiase ver as localidades de Cabuçu e Bom Jesus dos Pobres, no município de Saubara, além de Acupe, em Santo Amaro, de onde foi retirada mais de 50 toneladas de peixes mortos arrastados pela maré nos últimos 24 dias. “Com a maré enchendo e o vento, os peixes foram levados para lá”, explicou o pescador. As causas da mortandade ainda não foram reveladas. O Centro de Recursos Ambientais suspeita de contaminação química, e anuncia para o final da semana a divulgação do laudo técnico das análises feitas em laboratório.
PEIXE DE PRIMEIRA– Depois de coletar mais um robalo, desta vez de uns 4,5 kg, Joselito, estava desolado.
Para pegar somente um daqueles ele disse que passa até uma noite inteira. “Agora vê assim, boiando em cima da água, é triste”, falou. Segundo o pescador o robalo gosta de freqüentar os pesqueiros que se formam nos dutos que passam na Baía de Todos os Santos.
“É um peixe nobre, de primeira qualidade”, ressaltou.
Convencido de que a causa da mortandade dos peixes esteja relacionada com a “linha” do gasoduto ele critica os órgãos ambientais por ainda não terem ido àquele local, onde ele disse que encontra peixes mortos todos os dias, desde o início do desastre ambiental.
“Eles só querem vir de helicóptero e desse jeito não tem como ver que acontece realmente”, frisou.
O coordenador do comitê de cidadania de Candeias, Manoel Amorim, 59 anos, também a bordo do Maiana, dizia não entender por que até então não tenha ocorrido nenhuma inspeção subaquática no local. “A essa altura, deveria ter mergulhadores na área”, disse.
CAMPO ABANDONADO– Na Ilha de Bom Jesus dos Passos, o mergulhador aposentado Raimundo Correa, 48 anos, destacou os riscos para o meio ambiente e os prejuízos causados aos pescadores pelos restos da tubulação do campo de exploração de petróleo Dom João Mar, no mar de São Francisco do Conde, que foi desativado. “Até hoje pedimos que a limpeza do local seja concluída”, disse. Segundo ele, as redes engancham nos dutos rasgam. “Gases podem estar emanado dos antigos poços”, observou.
Além do gasoduto de Manati, passa no local, entre o Ferrolho e margem oposta, uma tubulação que sai da Refinaria Landulfo Alves e segue para o interior do Estado.
EXPECTATIVA – Ontem, o comerciante de peixes, Antônio José Ramos, Bom Jesus dos Passos, ainda estava na expectativa de ter os 2.095 kg de peixes e mariscos comprados pelo governo. Técnicos da Bahia Pesca estão contando os estoques para compra e incineração.