Corrida por produção cria legião de excluídos
Usinas buscam cortador com superprodução e barram os mais velhos, mulheres e trabalhadores com histórico de licenças médicas
As usinas estão barrando trabalhadores que não atingem cota de produção elevada nos canaviais do interior de São Paulo. A exclusão atinge cortadores de cana com mais de 40 anos, os carteiras brancas (sem experiência) e aqueles com histórico de licenças médicas na ficha. A linha de corte seria uma produção mínima de 10 toneladas de cana colhida por dia. Por isso, as mulheres estarão menos presentes na maior safra de cana-de-açúcar do Estado que começa a ser colhida. A legião de excluídos acaba caindo nas mãos dos 'gatos' - intermediários de mão-de-obra - e se recebe salários menores.
O cortador de cana Euclides Nogueira Coelho, de 70 anos, morador de Guariba, é um deles. Recusado pela usina por causa da idade, empresta seu braço para Petronil Luz Ferreira, conhecido 'gato' da cidade. Coelho dispensa a luva, os óculos e as caneleiras, equipamentos de proteção obrigatórios. 'O cabo do facão escorrega', justificou. Ferreira, o empreiteiro, reclama que não consegue competir com os grandes grupos. 'Eu fico com o osso.'
Entre os excluídos, muitos vieram de outros Estados e, sem dinheiro para o retorno, vagam pela cidade em busca de ajuda. Quase sempre batem à porta da Pastoral do Migrante, ligada à Igreja Católica, ou do Sindicato dos Empregados Rurais de Guariba.
O presidente do sindicato, Wilson Rodrigues da Silva, conta que as usinas aumentaram as exigências depois das denúncias das 'birolas' - mortes por exaustão nos canaviais. De acordo com a Pastoral, de abril de 2004 até o fim do ano passado, houve 17 mortes de cortadores associadas ao excesso de esforço. Este ano, a Pastoral contabilizou entre as suspeitas a morte do cortador José Pereira Martins, de 51 anos, ocorrida no plantio. Ele sofreu um enfarte.
O aumento na fiscalização do Ministério do Trabalho agravou a exclusão, segundo Silva. 'As usinas dispensam cortadores que são apanhados sem luvas, caneleiras e equipamentos obrigatórios.' Por trás dessas justificativas, há o interesse das empresas em ter mão-de-obra altamente produtiva e de baixo custo. Silva acredita que por isso as mulheres estão sendo barradas. 'Elas perderam o espaço devido a competição por produtividade.'
Por causa de variedades de cana transgênica, mais leves e com alta concentração de sacarose, o cortador precisa trabalhar 40% mais para colher a mesma tonelagem de 10 anos atrás. 'É uma cana resistente a pragas, por isso tem a casca dura, que dificulta o corte.' A média de renda, no plantio, é de R$ 680, valor que sobe para R$ 900 na safra. 'O etanol é a vitrine do mundo, mas o trabalhador continua sendo explorado. Não ganha bem, se alimenta mal e deixa sua saúde no canavial', diz o sindicalista.
MARANHENSES
Os impactos causados pela migração levaram a Igreja Católica a reunir religiosos de dez Estados, no fim de março, no Piauí. A irmã Inês Facioli e o padre Antonio Garcia Peres, da Pastoral de Guariba, que participaram do encontro, constataram que os mineiros perderam para os maranhenses o primeiro lugar na migração para São Paulo. 'O Maranhão é o novo pólo, mas há um fluxo da Bahia e do Piauí', conta o padre.
De acordo com a irmã, as usinas dão preferência ao trabalhador que ultrapassa a cota de 10 toneladas diárias. Como a safra deste ano é maior, está sendo admitida uma porcentagem mínima de carteiras brancas.
A maioria ainda viaja por conta e acaba sendo aliciada pelos 'gatos' de empresas que atendem usinas menores. Muitos voltam mutilados ou com problemas de saúde. Acabam ficando inválidos. A pesquisadora Maria Aparecida Moraes Silva produz um documentário sobre os mutilados da cana. Mesmo usando proteção, eles cortam as mãos, o lado das pernas, os dedos do pé. No plantio, se equilibram sobre o caminhão carregado e há quedas e atropelamentos.
Ele relata casos de migrantes que tomam dinheiro de agiotas para viajar. 'A mulher e os filhos ficam como uma espécie de garantia do pagamento.'
Antonio Francisco da Silva, de 18 anos, desembarcou de um ônibus clandestino, em Guariba, para sua primeira safra. Foram três dias de viagem com mais 42 bóias-frias. Cada um desembolsou R$ 210 para pagar o transporte. Raimundo Nonato Silva, 24 anos foi quem acertou com a usina a lotação do ônibus. Todos os recrutados são de Timbiras. 'Eles (a usina) pediram só nego bom de físico.' Os 42 migrantes dividem duas casas alugadas na Vila Jordão, periferia de Guariba, onde um quarto comporta até 12 pessoas.