Embargo causa perda à Cargill e põe em risco a renda de agricultor

09/04/2007

Embargo causa perda à Cargill e põe em risco a renda de agricultor

Se a multinacional Cargill tiver que redirecionar suas cargas que iriam para Santarém ao porto de Paranaguá terá um prejuízo próximo de US$ 20 milhões nesta safra. O valor se refere ao custo de frete adicional de US$ 25 por tonelada a partir do Oeste de Mato Grosso - de onde sai a maior parte da soja movimentada nesse corredor de exportação. Mas, esse prejuízo pode se estender ao produtor de soja na próxima safra, caso a decisão judicial persista, e será distribuído em deságio de US$ 1,50 por saca de soja, segundo explica o vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Soja (Aprosoja) do Oeste do estado, Glauber Silveira.


"Como a empresa já fixou o preço com produtor no ano passado - quando detinha a vantagem logística de Santarém - ela é que arcará com os prejuízos nessa safra", explica o dirigente da Aprosoja. No entanto, ele alerta que na próxima safra os preços pagos ao produtor podem ser menores, caso a empresa não tenha mais esse diferencial logístico, o que impactará, no mínimo, em US$ 1,50 por saca em todo o mercado o que, nos preços atuais, representa 12,5%.


Estimativas do mercado, indicam que o frete da tonelada do Oeste de Mato Grosso até o porto de Santarém custa US$ 38, valor que sobe para US$ 63 se o destino foi Paranaguá. Multiplicando-se esse diferencial de US$ 25 por tonelada pelo volume ainda a ser transportado pela empresa - dos 1 milhão de toneladas, faltam 785 mil, segundo informações da Transporte Bertolini Ltda. - chega-se ao montante de US$ 19,6 milhões.

A Cargill mantém em sigilo que outra alternativa estuda para escoar essa produção, caso o terminal no Pará continue fechado. Mas segundo o especialista em logística, Luiz Antônio Fayet, dificilmente há uma outra saída, que não a dos portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR). Também não é possível, por exemplo, direcionar as balsas para outra hidrovia, como a do Rio Amazonas, rumo ao porto de Itacoatiara. Segundo Paulo Vicente Caleffi, assessor da presidência da Bertolini, as balsas foram projetadas sob medida para o calado do terminal em Santarém, e não se adaptam a nenhum outro terminal dos rios amazônicos.

Afonso Champi, diretor de assuntos corporativos da Cargill, conversou ontem com a reportagem, mas mantém sigilo sobre o que seria o "plano B" da empresa. A respeito de prejuízos, Champi se limitou a dizer que o foco da empresa tem sido normalizar a operação do terminal, que representa um importante adicional de movimentação, visto os gargalos existentes nos outros portos brasileiros.


As perdas pontuais da Cargill ainda podem atingir a carga lacrada nas 21 balsas que já estavam em trânsito no Rio Madeira, quando foi fechado o terminal de Santarém, no dia 24 de março. São cerca de 48 mil toneladas que há 15 dias estão nas balsas sob efeito do clima amazônico, explica Caleffi. "Há muita umidade. Além disso, faz muito calor durante o dia e esfria a noite, combinação que gera condensação dentro da balsa que, enquanto estava em movimento, ainda ventilava a carga, o que não ocorre mais pois as balsas estão paradas", conta Caleffi.

O terminal de grãos foi interditado por determinação judicial. A empresa é acusada de não ter feito o Estudo de Impacto Ambiental (Eia-Rima). No dia 26 de março, a assessoria jurídica da Cargill protocolou mandado de segurança no Tribunal Regional Federal (TRF) solicitando a reabertura do terminal. Desde então, não houve julgamento do pedido, pois o juiz aguarda informações da primeira instância, conforme informou a assessoria do Tribunal. Na última quinta-feira, o TRF funcionou em regime de plantão por conta do feriado de Sexta-feira Santa. kicker: O preço da soja em Mato Grosso pode cair US$ 1,50 a saca na próxima safra caso o terminal de Santarém continue fechado.

FABIANA BATISTA