Biodiesel de dendê, uma nova esperança

12/04/2007

Biodiesel de dendê, uma nova esperança

 

"Voltado para o biocombustível, o dendê é a oleaginosa mais produtiva que existe. Ganha do girassol, da mamona, da soja. Um hectare com dendê rende 5 toneladas de óleo por ano. O de soja, apenas 500 quilos; mamona, 700" - diz o agrotécnico Claudiomar Silva, ao volante de sua camioneta por estradas de terra entre dezenas de milhares de palmeiras. Claudiomar trabalha há 15 anos na Agropalma, indústria pertencente ao grupo Aloísio Faria, e supervisiona a plantação em 33 mil hectares de terras da própria empresa e 1,7 mil hectares sob responsabilidade de agricultores familiares nos municípios de Moju, Tailândia, Acará e Tomé-Açu, interior do Pará. 


Em 24 de outubro último, auge da safra, a Agropalma bateu seu recorde de processamento de dendê: 2,936 mil toneladas de cachos. O fruto colhido é transformado em óleo bruto na unidade de produção de Tailândia e segue para o norte, 200 quilômetros pelo Rio Moju, três vezes por semana, em balsas de 1,150 mil toneladas que levam o dia inteiro para chegar até o cais da moderna unidade de refino da Agropalma na Baía de Guajará, bairro de Tapanã, Belém. Transformado em biodiesel, o óleo é entregue em caminhões ao terminal da Braspetro, a 4 quilômetros no mesmo bairro. Em 2005, a empresa, que desde 1981 explorava todas as demais potencialidades do óleo de palma, inaugurou a refinaria de biodiesel, único subproduto (o ácido graxo) de um elenco até então não aproveitado da oleaginosa. 


As 7 milhões de toneladas de biodiesel produzidas anualmente (a R$ 1,85 por litro) têm comprador cativo, a Petrobras, conquistado em leilões de fornecedores promovidos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). 


No limite das terras da Agropalma (com 60 mil hectares de floresta nativa "rigorosamente preservados", segundo Claudiomar) está a experiência da empresa com a agricultura familiar. São três grupos de 50 famílias que plantam em torno de 1,5 mil pés de palma cada uma. Os lotes, de 10 a 11 hectares, ficam um ao lado do outro. A Agropalma cumpre o acertado com o MDA: adquire da agricultura familiar 10% da matéria-prima que utiliza, dá o adubo, as mudas e toda a assistência técnica (as terras pertenciam ao governo do Estado, e a propriedade ainda não foi transferida aos agricultores). Em troca, a empresa garante a exclusividade no fornecimento da produção por 25 anos e tem desoneração (R$ 0,15 por litro) no pagamento de PIS/Pasep e Cofins. O Banco da Amazônia (Basa) repassa o financiamento do Pronaf, com juros de 3% ao ano, carência de três anos e "rebate" de 40% da dívida se for paga até o dia do vencimento. 


O primeiro grupo foi formado em 2002, os demais em 2004 e 2005. "O primeiro grupo foi difícil juntar. Só apareceram 49, tivemos que separar pai e filho para completar 50. Poucos acreditavam que ia dar certo", diz Edmilson Ferreira Barros, um que acreditou. Agora, com os dois primeiros grupos já produzindo, a dificuldade para formar o quarto grupo é o excesso de candidatos: "Tem mais de 200", diz Edmilson. 


Manuel de Nazaré Almeida do Nascimento, 37 anos, dois filhos, há seis anos plantava mandioca e tinha renda mensal entre R$ 50 e R$ 100 reais. Morava em rancho de madeira numa clareira à beira de um igarapé. No ano passado, segunda safra do dendê que plantou, colheu 22 toneladas de cachos e recebeu líquidos pouco mais de R$ 20 mil. "Tá bom, não tá?", diz ele, modesto. Manuel é o campeão de produtividade entre os agricultores familiares do Projeto Dendê I. Não se mudou para o lote em que produz, mas está construindo casa nova, de alvenaria, ao lado do rancho de madeira, à margem do igarapé. 


Ivan Silva, 47 anos, é o campeão de filhos: tem 14. "A vida melhorou só com o salário mínimo que recebi do Pronaf enquanto o dendê crescia. Antes tirava cem (reais) por mês, se muito. Perdi conta das noites que a mulher e a filharada iam dormir sem jantar", diz Ivan, que, no ano passado recebeu R$ 18 mil ao final da safra. "E eu às vezes nem almoçava", diz Raimundo Nonato de Mendonça, 58 anos, 10 filhos. Todos agora têm conta no Basa e consideram uma dádiva o banco reter numa caderneta de poupança compulsória 25% do que ganham. "É uma poupança, mas o banco se garante que o empréstimo vai ser pago", constata Benedita Costa, robusta e esperta agricultora que, com o filho e um novo marido, faz parte do primeiro grupo de plantadores de dendê. Contabilizada pelo próprio grupo, a produção coletiva de 5 mil toneladas em 2006 propiciou para cada família uma renda que oscilou de R$ 15.120 a R$ 20.265. 


Quando o presidente Lula visitou a região, em 2005, plantou uma muda de palmeira em frente à escola municipal da localidade de Arauaí, ao lado da estrada de terra aberta e conservada pela Agropalma. Os agricultores ainda esperam que se cumpra a promessa que Lula fez na ocasião: estender a luz elétrica à casa de cada um dentro do programa Luz para Todos. Cumprir a promessa não é tecnicamente difícil. Por sobre a floresta de dendê passam os linhões que levam energia de Tucuruí (a 80 quilômetros em linha reta) até Belém.