Renda garantida por 25 anos: a empresa dá assistência técnica, o Pronaf financia e a empresa compra

12/04/2007

Renda garantida por 25 anos: a empresa dá assistência técnica, o Pronaf financia e a empresa compra

 

A energia, federal, deveria ser "baixada" pela Celpa, estadual, e dependia de solicitação da prefeitura. Desentendimentos políticos - o governo do Estado era do PSDB - deixaram os agricultores à luz de lamparina. "Mas agora a prefeitura é do PMDB, aliada do PT que governa o Estado e que governa o país. Está mais fácil chegar a uma solução", diz Manuel Libório Ferreira dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju (8 mil associados) e um dos poucos agricultores familiares não atraídos pelo dendê. 


A palmeira plantada por Lula cresce robusta sob a proteção de um quadrilátero de ripas de madeira. Ainda este ano dará seu primeiro cacho e os agricultores esperam que a luz chegue antes. 


"Não me agrada a monocultura, mas não tenho nada contra o dendê. É árvore perene, produz uns 12 cachos por ano, desde o terceiro até 25 ou 30 anos. Pode dar de comer, vestir e educar muitas famílias. Além disso, o dendê ajuda no reflorestamento", diz Libório. 


Manuel Libório, cinco anos de estudo, herdou do pai uma propriedade de 32 hectares, onde se produzia mandioca e açaí, como é a tradição da região. "Só dava para a subsistência, vida chinfrim". Agora, com financiamento do Pronaf (R$ 6 mil de investimento; e R$ 3 mil de custeio), Manuel se dedica à fruticultura: banana, mamão (200 pés), pupunha (300 pés), coco, açaí (900 pés), caju, limãozinho e manga-rosa. À sombra das árvores, experimenta o feijão. "Tudo sem queimada, sem agrotóxico, preservando a floresta nativa e a mata ciliar. Estou satisfeito. A agricultura dá lucro", diz ele, para quem tão importante quanto o crédito é a capacitação do agricultor familiar "O crédito não é mais problema, isso está resolvido. Agora é o momento de aprender a produzir mais e melhor". 


Manuel Libório é meio poeta: "Se o agricultor familiar tiver assistência técnica e for bem informado, ele vai preservar a natureza, agora que todo mundo fala em aquecimento global. Quem mais que o agricultor familiar tem amor à terra, faz carinho no pé de feijão e dá nome à vaquinha que lhe dá leite?" 


A Agropalma não trabalha só com as famílias de agricultores agrupadas junto às suas terras. A 20 quilômetros de distância, no assentamento Calmaria II, fazenda abandonada e invadida há mais de 15 anos, que o Incra legalizou em 1998, dividiu em lotes de 20 a 100 hectares e distribuiu para 400 famílias, cada uma delas reserva seis hectares para o plantio de dendê, com o compromisso de só explorar os espaços já desmatados. O financiamento é do Pronaf e a Agropalma o comprador exclusivo da produção. Aqui a luz elétrica está chegando e já beneficia 40% dos assentados. Os 32 quilômetros de estradas vicinais foram abertos e conservados pelo Incra, e a escola primária está num raio de 1 quilômetro das casas dos assentados. Filhos adolescentes de agricultores freqüentam cursos técnicos de agronomia e agroecologia na cidade de Moju. O Incra, com dinheiro do Ministério das Cidades, financia casa própria para os assentados - quatro cômodos de alvenaria, chão de cimento, no valor de R$ 5 mil, que podem ser reduzidos a R$ 2,5 mil se não houver inadimplência - e subiu de R$ 1,1 mil para R$ 2,4 mil o chamado crédito-apoio, empréstimo para aquisição de ferramentas, arame para cercas e compra de animais de tração para ajudar na lavoura. "Nada é de graça, tudo é pago, mas está melhor do que antes. Há mais sensibilidade", diz Carlos Alberto Dias, o Balsa, 28 anos, agricultor familiar e ativista do sindicato. 


Algumas das terras do Calmaria II já não pertencem aos primeiros assentados, que as venderam depois de receber o título de propriedade. "Capitalismo não é isso? Você é livre para dispor de sua propriedade", comenta Rosenilson Ferreira de Carvalho, o Cambito, um agricultor familiar que comprou, em fevereiro, por R$ 22 mil, os 50 hectares em que agora trabalha. Pagou com a terra que já possuía mais para o dentro da mata (32 hectares), acrescida de uma moto e R$ 4 mil em dinheiro. Com razoável conhecimento dos novos métodos de agricultura - trabalhou na Agropalma e está concluindo o curso de técnico agrícola, uma experiência introduzida pelo MEC que permite ao aluno freqüentar a escola na cidade durante 15 dias e trabalhar na lavoura o restante do mês - Rosenildo, com financiamento do Pronaf, pretende dedicar-se à policultura. Já está plantando feijão, maracujá, pimenta do reino, açaí, cupuaçu, mandioquinha, arroz do seco, milho. E vai plantar dendê, é claro.