Plantios no quintal de casa

16/04/2007

Plantios no quintal de casa

 

 

Tendo como fundo a Serra do Mulato, oito famílias de pequenos agricultores sobrevivem no povoado de Goiabeira II, região do Salitre, distrito de Juazeiro, do plantio de cebola, tomate, melão e pimentão, culturas de curto prazo. O Salitre representa, no Vale do São Francisco, uma área pioneira na agricultura irrigada.
Mas a dependência de recursos oficiais ou da parceria com pequenos produtores da região deixam esses agricultores familiares reféns de situações adversas. Eles firmam a parceria, recebem o investimento e, após a colheita e pagas as despesas, dividem o lucro com os parceiros.


Em uma área de um hectare, Renato da Conceição Carvalho, 18 anos, plantou cebola em dezembro e deve colher esta semana de 800 a 1.000 sacas (de 20 kg), que vai vender no Mercado do Produtor de Juazeiro ao preço médio de R$ 15, o que sugere rendimento de R$ 12 mil a R$ 15 mil, do qual fica com apenas R$ 3.500 e depois repassa R$ 8.500 aos seus parceiros. Mas isso não desanima o jovem produtor, que nasceu, cresceu e foi criado junto à terra, ao trabalho no campo e tem amor pelo que faz sem querer mudar o modo de vida por nenhuma outra profissão. Junto com o pai, Honorato da Cruz Carvalho, e os irmãos Nilton, 17 anos, e Flávio, 15 anos, ele acorda cedo e trabalha durante todo o dia na terra.

A área de plantio é no quintal da casa – onde estão a mãe Rosália da Conceição e os outros filhos: Rosana, 21 anos, e Isael, 10 anos. Enquanto o pai e os irmãos trabalham numa das áreas com as culturas de maracujá, feijão e melancia, Renato prepara a terra de outra pessoa, para quem trabalha paralelo à sua plantação. “Estamos plantando melão, que deve estar pronto para ser colhido em até 75 dias”, diz. Trabalhar para outro agricultor, mesmo tendo a sua própria terra, é, para Renato, necessidade, já que precisa aumentar a renda de alguma forma para aplicar em seu lote. “Se a gente tivesse como manter tudo só com a própria família, seria melhor, pois não só prejuízo, mas também o lucro seria nosso”, afirma o agricultor.

A menos de 200 metros da casa e da plantação de Renato fica a do primo Sérgio Conceição de Souza, 23 anos, que também vive e trabalha na mesma situação, sendo toda a família de agricultores, com os cinco irmãos trabalhando juntos. Ele diz que é preciso muita vontade para conseguir sobreviver da agricultura familiar na região, principalmente porque os gastos são muito altos, os lucros são pequenos e os produtores ainda precisam encarar as constantes oscilações nos preços. “No ano passado, teve produtor que preferiu perder e destruir toda a plantação no pé do que ser obrigado a vender a cebola a R$ 0,50 a saca de 20 quilos”, conta Sérgio. Ele foi um dos que perderam dinheiro na colheita passada e teve que se desfazer de 18 mil sacas cultivadas em oito hectares, vendo por R$ 0,50 a saca.

As despesas para o plantio de uma área de um hectare chegam, segundo Renato e Sérgio, a um montante de R$ 5 mil. “Nós gastamos com sementes, trator, mudação, adubo e agrotóxicos.
A irrigação, por exemplo, consome muito, pois temos de alimentar a bomba que puxa água do Rio Salitre (que fica há 450 m das plantações) e são 120 litros por mês a preços de R$ 2 o litro”, explica Renato. Além disso, Sérgio diz que existem despesas: “Os sacos usados para embalar a cebola custam R$ 0,90 e o transporte do produto até o Mercado do Produtor custa R$ 200 por cada carregamento de até 500 sacas.” A mão-de-obra na época da colheita também arranca seu pedaço, pagando R$ 15 por dia durante a colheita, que dura até cinco dias com oito horas de trabalho de sete pessoas.

OUTRAS CULTURAS – A mesma terra onde está plantada a cebola que será colhida esta semana será usada para o plantio de outras culturas como o tomate e o melão. Segundo Renato e Sérgio, apesar de exigir um uso maior de agrotóxico, a cultura do tomate tem gasto menor que as outras e eles aproveitam para não deixar de sustentar os rendimentos em qualquer época do ano. Como são culturas de pequeno porte, a cebola, a melancia e o melão sofrem muito com o período chuvoso, que provoca a perda de produção e prejuízo aos agricultores. “Mas é na época da seca que o preço da cebola cai muito”, relata Renato.

 De acordo com ele, o fato se deve também à presença de cebola vinda de regiões do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e até da Argentina. Essa invasão de mercado acaba derrubando o preço do produto local e prejudicando mais de 700 agricultores familiares que vivem na região. “A produção e produtividade são importantes, mas as culturas de curto prazo são produtos de insegurança, por não terem uma cobertura por parte do Estado, causando as grandes oscilações”, afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agnaldo Meira.

Os agricultores do Salitre dizem que recebem visitas de técnicos e pesquisadores da Embrapa com orientações sobre as culturas, uso correto de agrotóxico e demais assuntos ligados aos plantios do momento. As dificuldades não tiram dos dois rapazes a alegria de trabalhar na terra, de aproveitar o sossego do lugar onde vivem com a família, sem os problemas comuns à área urbana.

CRISTINA LAURA