Bahia à espera de radiografia rural
A Bahia possui 300 mil propriedades rurais e 10 milhões de cabeças de gado. Na verdade, é o que se supõe a partir de estimativas. O novo censo agropecuário, iniciado na segunda-feira passada, 16, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é esperado com expectativa pelos gestores públicos, empresários e pesquisadores.
Um dos recortes da pesquisa que mais interessam ao governo estadual é o das informações referentes à agricultura familiar. “A Bahia é o Estado com o maior número de agricultores familiares e o governo precisa conhecer o quantitativo real para definir políticas de incentivo, ações de comercialização e de desenvolvimento social”, comenta o superintendente de Desenvolvimento da Agropecuária da Secretaria Estadual da Agricultura, Wilton Cunha.
Ele reforça que os dados do censo censo permitirão aproximar a visão do gestor público ou de qualquer outra instituição da realidade empírica de uma determinada região.
No caso da Bahia, o quantitativo, o qualitativo e a distribuição de produtos, diz, são importantes para o estabelecimento de políticas públicas mais adequadas.
A dfasagem das informações (o último censo agropecuário foi realizado há 10 anos) tem obrigado os gestores a tomarem decisões a partir de estimativas e aproximações.É o caso da caprinocultura.
Dados da secretária estadual indicam que 86% dessa produção estão concentrados no norte baiano, embora, circulando pelo Estado, perceba-se que existem diversas regiões desenvolvendo a caprinocultura, cita o superintendente.
Assim, as informações atualizadas podem sinalizar para a necessidade de descentralizar políticas públicas. Além disso, o censo pode contribuir para a definição de políticas de infra-estrutura, atração de negócios para o Estado e identificação das melhores rotas para escoamento da produção.
“As informações do censo serão de suma importância para todos”, enfatiza o vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Sérgio Pitt. Para o produtor, aponta, ficará mais fácil se situar no cenário de atuação. Já o fornecedor de insumos conhecerá melhor o público que demanda seus produtos, assim como os investidores poderão dimensionar a capacidade produtiva das regiões.
“Uma indústria de óleo, por exemplo, necessita de informações precisas para elaborar os estudos de implantação de uma unidade, definir a capacidade produtiva e de expansão”, diz Sérgio Pitt.
O vice-presidente da Associação Baiana de Criadores, John Hamilton Dias, lembra que o setor agropecuário fica vulnerável com a imprecisão das informações.
É o caso do tamanho do rebanho de gado. “Estamos vacinando 10 milhões de cabeças hoje, sendo que, há poucos anos, passavam de 12 milhões de cabeças na Bahia.
Onde foram parar esses dois milhões? Será que não estão mocados em regiões que a gente não vai?”, questiona John Hamilton, cuja preocupação central é com o risco da volta da febre aftosa.
O diretor de Estatísticas e Indicadores da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), Edmundo Figueirôa, ressalta que a pesquisa preencherá uma imensa lacuna de informações indispensáveis ao conhecimento da realidade agrícola dos Estados e do País.
"Não se podia ficar mais tempo sem informações sobre um setor que vem sistematicamente se modernizando.
Como saber, por exemplo, qual a compatibilidade entre a atual ocupação do campo e a política de reforma agrária? Qual o impacto ambiental pelo uso intensivo da irrigação e dos defensivos agrícolas? Que alterações substanciais ocorreram, ao longo destes dez anos, em relação à questão fundiária?", enumera.
O diretor lembra que o setor tem sustentado, por diversos anos seguidos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Além disso, "foi decisivo nos períodos inflacionários, especialmente na contenção da alta de preços, sendo inclusive chamado, pelos especialistas, de âncora verde. Este mesmo setor vem, também, contribuindo decisivamente para impulsionar o atual desempenho da economia brasileira".
A ausência do censo agropecuário, acrescenta, impossibilitava o conhecimento de diversas informações imprescindíveis ao planejamento, ao monitoramento e à avaliação de políticas públicas.
“Por outro lado, impedia os gestores e agentes econômicos de balizarem o processo decisório com um instrumento atual e que refletisse as reais mudanças ocorridas no campo”.