Cachos que passam batidos

07/05/2007

Cachos que passam batidos

Toda semana, a Central de Abastecimento de Vitória da Conquista, no sudoeste do Estado, recebe cerca de 7 toneladas de bananas em cacho. A maioria chega dos municípios de Espinosa e Machado Mineiro, em Minas Gerais.

Aparentemente, são frutas sadias, mas isso não elimina o descumprimento de uma instrução normativa do Ministério da Agricultura, de prevenção contra a sigatokanegra, doença fatal para a bananeira.

Minas Gerais, ao contrário do Estado da Bahia, não é considerado zona livre da doença, mas esta situação é pouco levada em conta, em Vitória da Conquista, onde as cargas são desfeitas fugindo da ação dos fiscais de trânsito vegetal da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), desrespeitando as barreiras sanitárias.

Procurada por A TARDE, a coordenadoria regional da Adab não se pronunciou. A recém-empossada coordenadora, Rosana Ladeia, esquivouse de uma avaliação, mas, em Salvador, o diretor de defesa sanitária da agência, Cássio Peixoto, disse que a situação será apurada.

Ele lembrou que a Bahia foi o primeiro Estado a ser considerado área livre da sigatoka-negra no País e, por conta de um trabalho criterioso desenvolvido pelo governo estadual, ampliou a área plantada, já ostentando a posição de maior produtor nacional de banana, com mais de 1 milhão de toneladas. “A *defesa”, disse Cássio Peixoto, “é prioridade, e o combate à sigatokanegra foi eleito ponto de maior relevância para nós”.

Em todo o Estado, a Adab conta com 43 barreiras sanitárias fixas e 23 móveis, mas, admitiu o diretor, a possibilidade de entrada de banana do norte de Minas Gerais existe e o controle é feito com base em instruções normativas do Ministério da Agricultura. “Mas pode ser que ocorra uma lacuna, por isso vamos apurar o fato, ver se há veracidade, para correção”.

PERIGO MAIOR – Na Central de Abastecimento de Vitória da Conquista, maior entreposto hortifrutigranjeiro da região, A TARDE não encontrou dificuldades em registrar a chegada de produtos em cachos. O transporte, que deve ser específico, não podendo ocorrer em caixas de madeira ou papelão, mas em recipientes plásticos, desobedece às normas. O raro é detectar entre os caminhões de cargas um que se adequou às exigências.

Segundo o Departamento de Sanidade Vegetal (DSV), do Ministério da Agricultura, a sigatoka-negra exige um cuidado maior, em relação à uma outra doença (sigatokaamarela). Para a sigatoka-amarela, os técnicos recomendam entre quatro e cinco aplicações de fungicida, enquanto que para a sigatokanegra são 15 ou mais.

A doença é causada pelo fungo Mycosphaerella fijiensis. Em todas as regiões do mundo onde ocorre, constitui-se no principal fator de queda na produtividade, com reduções de até 100% na produção.

Segundo a Embrapa, a doença, se comparada com a sigatokaamarela, é extremamente destrutiva, pois provoca a morte prematura das folhas, ataca um número muito maior de cultivares de bananeira e, nas regiões quentes e úmidas, exige até 52 pulverizações por ano com fungicidas protetores ou 26 com sistêmicos.

O agrônomo Reuber Matos explica que os primeiros sintomas são pequenas pontuações claras ou áreas despigmentadas. Essas pontuações, prossegue Matos, se alastram e formam estrias marromclaras, que podem atingir 2 ou 3 milímetros de comprimento.

Nos estágios finais da doença, as lesões são de cor branco-palha com pontuações escuras.

Diz o agrônomo que, para retardar a disseminação do fungo, é preciso impedir o transporte de mudas infectadas e o uso das folhas como proteção no transporte.

Também, não manusear produtos químicos para desinfestação das embalagens e do veículo nas áreas contaminadas.

A recomendação aos produtores de municípios onde a doença ainda não ocorreu é para que se observe o que os técnicos tratam como “princípios de exclusão”, ou seja, regulamentar ou proibir o trânsito de materiais botânicos de hospedeiros suscetíveis que possam introduzir o patógeno. Onde a doença já ocorre, é recomendado o controle genético com o uso de cultivares resistentes ou o controle químico com o uso de fungicidas.

JUSCELINO SOUZA