Fiscalização ameaça 'soja responsável'

10/05/2007

Fiscalização ameaça 'soja responsável'

Criada oficialmente em novembro do ano passado com o objetivo de formular uma cartilha de "bons modos" para o setor de soja, a Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês) deu nesta semana a partida para o que deverá ser seu maior desafio nos próximos anos: convencer grandes e pequenos produtores de que precisam cumprir suas obrigações sociais, ambientais e trabalhistas. 


Formado por pesos-pesados como Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), Unilever, ABN Amro Real, Amaggi e WWF, o grupo deverá apresentar até 2009 uma cartilha de critérios socioambientais, na tentativa de regular globalmente um setor malvisto em alguns países. Estima-se que 95% dos produtores de soja brasileiros cometam algum tipo de ilegalidade. 


O pontapé inicial foi dado ontem, em São Paulo, com a primeira Assembléia Geral que colocou à mesma mesa representantes da indústria, da sociedade civil e produtores de Brasil, Argentina, Paraguai, Holanda e Suíça. No encontro, foram eleitos o presidente do grupo - Christopher Wells, superintendente para riscos socioambientais do banco ABN Amro Real - e os 15 membros do conselho, representando igualmente todos os setores. 


Iniciada com 10 membros, a Mesa Redonda já contabiliza 51 associados interessados em participar da iniciativa que ganhou força com a moratória da soja decretada em meados do ano passado, na qual grandes indústrias se comprometeram a não comprar mais soja oriunda de áreas de desmatamento da Amazônia. 


"A preocupação tem crescido muito", diz Wells, do ABN Real. "O call center da Unilever na Europa recebe todos os dias pelo menos um telefonema de alguém perguntando de onde vem a soja que está em seu produto". 


Apesar das boas intenções e do discurso afinado - o de que vivemos em uma nova era na qual os sojicultores precisam se adequar -, ainda pairam dúvidas em relação à realidade no campo. A principal delas é a fiscalização, hoje quase que inteiramente nas mãos das próprias indústrias. 


"Há só três grupos de soja certificados: Imcopa, Caramuru e Amaggi", diz Augusto Freire, CEO da Cert ID, certificadora agrícola com sede em Porto Alegre. "As multinacionais são resistentes". 


Segundo Afonso Champi, diretor de assuntos corporativos da Cargill, maior agroindústria do mundo, a auditoria está entre os temas de debate da Mesa Redonda da Soja Responsável. "Cada um tem o próprio método de monitorar fornecedores. Mas uma das discussões é se uma terceira parte independente deveria fazer isso", diz Champi. 


Outra questão levantada é sobre a entrada de players importantes à Mesa Redonda, como os Estados Unidos. "Os americanos vieram e só olharam", diz Wells. 


Para Carlo Lovatelli, da Abiove, o "grande drama" é incluir grandes consumidores no grupo, sobretudo a China. "É muito importante que o debate seja globalizado, não dá para ser um debate entre Brasil e Europa", diz. "A entrada da China é uma questão de tempo. A médio prazo isso vai convergir para uma especificidade da demanda mundial." 

BETTINA BARROS