Agricultor se descuida com produtos tóxicos

14/05/2007

Agricultor se descuida com produtos tóxicos

Um grupo de 104 agricultores do município de Vitória da Conquista no Sudoeste do Estado, teve atestada a contaminação por produtos agrotóxicos, ao ser submetido a exames de rotinas solicitados pelo Centro de Referência de Saúde do Trabalhador, da Secretaria de Saúde do município. As amostras foram coletadas em lavradores e trabalhadores em lavouras de café, hortaliças e frutas das localidades de Inhobim, Lagoa das Flores e Limeira, em Vitória da Conquista. Embora o teste tenha comprovado positividade em 48 casos, os técnicos temem que todos estejam contaminados.


Exames semelhantes foram realizados também com lavradores ds zonas rurais de Barra do Choça, Ibicoara, do perímetroirrigado de Livramento de Nossa Senhora e das plantações de milho, algodão e feijão, em Malhada e apontaram inativação da enzima colinesterase, provocada por compostos fosforados. O biólogo Luiz Alberto Matos, responsável técnico pela pesquisa, explica que a função da colinesterase é destruir a acetilcolina, que serve como mediadora das transmissões nervosas no sistema nervoso central e nas junções musculares nervosas. “Com isso, o organismo passa a sofrer uma série de manifestações, a exemplo de vômitos, fadiga, dores de cabeça, perda da força muscular, sonolência, convulsões, problemas cardiovasculares e confusão mental”, detalha o biólogo.

DESCUIDOS – O Centro de Referência de Saúde do Trabalhador abrange 64 municípios, mas somente em cinco foram aplicados os testes. Segundo a coordenação, o critério de seleção elegeu municípios que notificaram casos suspeitos em 2005. Também, municípios que realizaram conferência “As pessoas sabem que o produto é tóxico, causa males à saúde” “Às vezes o contato não resulta em intoxicação aguda” Luiz Alberto Matos, biólogo do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador de saúde do trabalhador e apresentaram atividade de risco de intoxicações por agrotóxicos.


A falta de informação, aliada ao não-cumprimento de cuidados básicos na aplicação dos defensivos, foi apontada como uma das principais causas do elevado índice de contaminação. Isso ficou evidenciado na aplicação de questionários aos 104 trabalhadores.
“As pessoas sabem que o produto é tóxico, causa males à saúde, mas às vezes o contato não resulta em intoxicação aguda. Isso quer dizer que os sintomas sentidos não são associados ao agrotóxico e quando a pessoa busca orientação médica não é indagada sobre a sua atividade laboral”, diz o biólogo.


“Muitos trabalhadores desconhecem os sintomas e alguns médicos também, o que prolonga a doença e agrava a situação”, completa o coordenador do centro de referência, Luís Rogério Cosme Santos. Para orientar os trabalhadores e evitar novos casos de contaminação, o centro tem realizado palestras e seminários de capacitação por equipes de vigilância. Durante a pesquisa foi desenvolvido o projeto de “implantação do sistema de vigilância das populações expostas aos agrotóxicos” nos municípios onde foram feitas as coletas das amostras sangüíneas.
“Na localidade de Lagoa das Flores, muitos trabalhadores já deixaram de aplicar agrotóxicos, mas outros continuam”, preocupase o técnico de segurança no trabalho, Edval Passos de Souza.


Ele alerta para a não-utilização do equipamento de proteção individual (EPI), sob alegação de custo ou desconhecimento. “Não resta dúvida que um outro fator para isso é o alegado incômodo que o equipamento provoca, especialmente em dias quentes. Por isso, o trabalho de conscientização deve ser intensificado também neste aspecto”, finalizou. Não é raro flagrar trabalhadores, nas margens das rodovias e estradas vicinais na região cafeeira e de perímetros irrigados do sudoeste, aplicando defensivos sem o uso de equipamentos de proteção. Para eliminar as ervas daninhas e preparar o solo para o plantio, eles aplicam defensivos agrícola, sem uso de luvas, máscara ou roupa apropriada, a exemplo de Antônio de Jesus Silva, 40 anos, nas margens da BR-330, no sudoeste.


Botas protegem os pés do lavrador, mas ele parece não se incomodar com o cheiro forte do produto. “Já estou acostumado”, desconversou, enquanto prosseguia o trabalho. Indagado se sabia dos riscos que estava correndo, garantiu que sim, porém declarou que lida com defensivo há cinco meses e que nunca teve problema de saúde. Como argumento para não utilizar equipamentos de segurança, ele cita um vizinho seu que, de acordo com o seu relato, está há 15 anos trabalhando da mesma forma, raciocina: “Ele está bem de saúde”.

JUSCELINO SOUZA