Caminho aberto para a soja brasileira
A "disputa" entre soja e milho por áreas de plantio na safra 2007/08, acirrada pela valorização internacional de ambos depois da "febre do etanol" - e da decisão dos produtores americanos de reduzir o plantio de soja em 3,41 milhões de hectares, para 27,17 milhões no novo ciclo -, deverá beneficiar os produtores brasileiros da oleaginosa. Entre os três maiores exportadores de soja no mundo, o Brasil é, conforme as previsões atuais, o único que terá expansão significativa de área plantada na próxima temporada, que no país começará a ser cultivada em setembro. |
Analistas ouvidos pelo Valor estimam que a expansão do plantio de soja no Brasil será de 3% a 5%, sendo que em 2006/07 o grão ocupou 20,64 milhões de hectares. Ainda que a estimativa mais favorável seja atingida, a área ampliada não será superior a 1 milhão de hectares (menos de um terço da redução dos EUA), o que leva consultores a preverem melhores preços internacionais no próximo ciclo. |
Em entrevista recente, Craig Ratajczyk, diretor de assuntos globais do Conselho de Exportação de Soja dos EUA, disse que os produtores americanos já trabalham com a perspectiva de preço médio de US$ 9 por bushel no segundo semestre, bem acima da média histórica, de US$ 6 (ver mais sobre preços à Página B10). "Nos Estados Unidos não há nem haverá espaço para ampliar a área com soja e a Argentina também tem grande interesse em cultivar o milho para a produção de etanol. O Brasil possui o melhor potencial para expandir o plantio", afirmou Ratajczyk. |
André Pessôa, diretor da |
A Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) mantém estimativa mais conservadora, de aumento de 3% na área plantada. Em entrevista recente, a |
No caso da Argentina, a tendência é de manutenção da área com soja, que no ciclo 2006/07 foi de 16 milhões de hectares. Lorena D'Angelo, do Centro de Informações e Estudos Econômicos da Bolsa de Comércio de Rosario da Argentina, diz que ainda não há estimativas para a próxima safra, mas "o sentimento do mercado" é de que os produtores tendem a repetir a área. "Neste momento, os preços direcionam os produtores para o plantio de milho, que já avança sobre o cultivo do trigo neste inverno. Mas tudo dependerá dos preços e do clima", disse Lorena. |
Pessôa, da Agroconsult, observa que pela primeira vez existe uma concorrência de fato entre milho e soja na Argentina, devido ao avanço de projetos de usinas de etanol de milho. O país possui 30 projetos de usinas, que até 2010 consumirão 10 milhões de toneladas de milho por ano - volume que demandará uma área adicional da cultura de 1,3 milhão de hectares. |
A disputa entre milho e soja no campo se acirrou em todo o mundo por conta da demanda crescente pelo setor de biocombustíveis. Em conseqüência, o potencial de expansão do plantio da soja no mundo fica restrito - excetuando-se o caso brasileiro. Um estudo divulgado pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) prevê um aumento das exportações brasileiras de soja de 25,9 milhões de toneladas no ciclo 2006/07 para 29,9 milhões na safra seguinte e um novo aumento na safra 2008/09, para 37,4 milhões de toneladas - a partir da qual o país se tornará o maior exportador do complexo, superando os Estados Unidos, que deve reduzir seus embarques de 31,2 milhões para 27,2 milhões no triênio. |
Caso a expansão do plantio de soja no Brasil se concretize, o país poderá voltar a ocupar a liderança nas exportações globais da oleaginosa. Conforme dados do USDA, na safra 2005/06, o Brasil assumiu a liderança sobre os Estados Unidos, com uma participação de 40,3% nos embarques globais, contra 40,1% dos EUA e 11,3% da Argentina. Na safra 2006/07, a soja brasileira ocupou por 37% do mercado global, contra 42,5% do grão americano e 10,4% do argentino. |
Para a safra 2007/08, as projeções do USDA indicam que o Brasil poderá elevar a sua participação em 3 pontos percentuais, para 39,9% dos embarques globais. Os EUA, embora ainda na liderança, devem reduzir a sua participação em 0,7 ponto percentual na safra nova, para 41,8% do total. |