Pesca já está liberada, mas vendas ainda são tímidas
No primeiro dia de liberação da pesca em Bom Jesus dos Passos, um dos locais atingidos pela Maré Vermelha, o comerciante Antônio José Bermaniano, 52 anos, vendeu 400 quilos de peixe, apenas metade do que costumava negociar, não fosse o receio da maioria da população, que ainda teme ingerir frutos do mar oriundos da região de Santo Amaro, Saubara, São Francisco do Conde, Salinas da Margarida e das ilhas Bom Jesus dos Passos e Frades.
Uma reunião, na próxima segundafeira, às 9 horas, na Bahia Pesca, em Ondina, será realizada para elaborar uma campanha de conscientização da sociedade e definir critérios para o órgão comprar a mercadoria que não está sendo comercializada.
Tentando negociar a dívida acumulada nos quase três meses de paralisação, Antônio Bermaniano acredita que sua vida será regularizada. “Não foi fácil ficar esse tempo todo pagando empregados sem vender. Sem contar o gasto com energia, estudo dos meus filhos e manutenção da minha casa.
Mas agora está melhor e espero pagar tudo que devo até o final do verão”. Bermaniano só reclama dos compradores que vinham de Salvador e outros municípios para comprar sua mercadoria, que até agora não voltaram. “Muita gente ainda acha que vai passar mal se comer o que a gente vende aqui. A ilha inteira consumiu o peixe esse tempo todo e ninguém teve nada, mas o receio ainda existe”.
Durante o período da Maré Vermelha, quando as causas da mortandade ainda eram desconhecidas, a própria Bahia Pesca chegou a comprar pescado a preços bem mais baixos. O pescador e intermediário Waldir Borges, 75 anos, morador do distrito de Acupe, em Santo Amaro, diz que perdeu R$ 2,3 mil. “Comprei dois quilos de camarão por R$ 18 para fazer um quilo de filé e tive que vender para a Bahia Pesca a R$ 6. O sururu, de R$ 7 passou para R$ 2. O robalo, de R$ 12, fiz por R$ 6. Disseram que estava ruim e a gente teve que desfazer. Continuei comendo e não tive nada”, afirma.
Como a maioria dos conterrâneos, Waldir espera pela volta dos consumidores que esvaziavam seu estoque diariamente. “Só ficou ruim a venda. O povo daqui não, mas quem vem de fora ainda está com medo de comer”. Por volta das 11h30, quando várias canoas chegavam com pescadores que saíram às 4 horas da manhã, ainda era pouca a procura dos revendedores.
“Eu não vou voltar a comprar muito até que o povo comece a me procurar de novo. Não adianta encher tudo de peixe se a gente sabe que não vai ter saída”, conta o comerciante comerciante Antônio Bastos. Andando pelas ruas, os amigos Jeferson Borges e Carlos Conceição eram dois dos pescadores que tentavam repassar o produto pescado durante toda a manhã. “Tá difícil. Às vezes a pessoa até quer comprar, mas fica com medo de não sair e a gente acaba tendo que ir de porta em porta e comer o resto”.
CARNE – Proprietário de um restaurante em Bom Jesus dos Passos, Antônio Jorge Teixeira que foi obrigado a alterar o cardápio, voltou a colocar peixe na relação dos pratos disponíveis há 15 dias. “Ainda não está bom. Hoje mesmo um grupo da Embasa que está fazendo um trabalho aqui me perguntou logo se tinha carne. Muita gente ainda não confia em comer o peixe”.
O seguro emergencial no valor de dois salários mínimos, sendo um para cada mês de proibição da pesca, para pescadores ligados a colônia de pesca ou associação de cada região está sendo cumprido. “Alguns ainda estão com problema de documentação, mas estamos resolvendo”, disse o presidente da Colônia de Pesca Z 27, em Acupe, João Sacramento. Em Bom Jesus dos Passos, o presidente do conselho fiscal da colônia, Antônio Teixeira, disse que há uma mobilização para ajudar as pessoas excluídas do benefício. “Dos 800 pescadores que temos aqui na ilha, 400 são associados.Mas estamos vendo um jeito de ajudar quem ficou de fora e está sofrendo até hoje”.
Kátia Ramos, marisqueira conhecida em Acupe, que em matéria publicada em A TARDE, em 2 de março, não sabia como faria para sustentar a família, tinha outra aparência na manhã de ontem.
“Trabalhando, tudo voltou ao normal. Recebi pelo siri que estava lá em casa e paguei minha luz, a água e comprei meu gás”.
Entenda o caso
Mortandade começou no dia 6 de março
Peixes começaram a aparecer mortos na Praia de Cabuçu, em Saubara. A suspeita era de pesca com bomba. Carapebas e xangós eram os mais afetados
Polícia Civil de Saubara fez diligências no mar e prendeu um homem suspeito de pesca com bomba
Mais peixes mortos aparecem também na Praia de Itapema, em Saubara
Mortandade aumentou, atingindo os municípios de Santo Amaro, Salinas da Margarida, São Francisco do Conde, Madre de Deus e ilhas dos Frades e Bom Jesus dos Passos, de Salvador
As primeiras análises, divulgadas no dia 23 indicaram presença de contaminante químico nas vísceras dos peixes. CRA fez alerta para não-consumo de pescado da região e considerou o caso um desastre ambiental
Os municípios começaram a decretar estado de emergência. No dia 29, o Ibama proibiu a pesca nas regiões afetadas. Pescadores e marisqueiras de Santo Amaro e Saubara começam receber cestas básicas enviadas pela Conab
O ministro da pesca vem a Salvador e discute com o governador em exercício as ações conjuntas de assistência aos pescadores
Pescadores e marisqueiras de Santo Amaro e Saubara começam a receber cestas básicas enviadas pela Conab.
Dia 4 de abril: o CRA divulga laudo no qual afirma que a mortandade foi causada por maré vermelha, mas descartou risco para o consumo de peixes e mariscos
Meados de abril: ocorre nova mancha avermelhada no mar, mas sem mortandade. O turismo também foi afetado
MEIRE OLIVEIRA