Novo diamante extraído da Chapada Diamantina

11/06/2007

Novo diamante extraído da Chapada Diamantina

O engenheiro holandês Theodorus Daamen foi recebido com certa desconfiança, em 2004, quando anunciou que iria plantar maçãs no município de Ibicoara, na Chapada Diamantina, região do Estado onde a mineração foi a principal fonte de renda, no século XIX, e que depois se destacou como forte produtora de hortigranjeiros. Além do mais, o clima da região para a cultura da maçã era tido como adverso em determinados períodos do ano. Também, o custo do projeto, estimado em R$ 1 milhão, para uma área de 45 hectares, não permitia erro.


A fruta é característica de clima temperado, mas isso não demoveu o engenheiro Theodorus Daamenda idéia. Ele se manteve inabalável na sua tese de que na área experimental escolhida a temperatura pode chegar a 5° C em determinadas épocas do ano. Com a plantação a mil metros acima do nível do mar, onde o clima é ameno nos meses mais quentes do ano, ele acreditava que daquele solo semiaacute;rido brotaria o que chama de “diamante vermelho”.


Daamen topou o desafio e, de garimpeiro sonhador, se transformou em pioneiro da maçã em todo o Norte e Nordeste. Agora, diz ele, o desafio é coisa do passado: “O diamante vermelho brotou da terra e todo mundo pode ver”. Os frutos das macieiras experimentais, plantadas em 3 hectares, e que podem ser vistos por quem trafega por aquele trecho da BA-142, foram apresentados em 2005 a supermercados e centros de distribuição, com boa aceitação. “A maçã tinha bom tamanho, mas o que surpreendeu mesmo a todos foi a cor do fruto, mais acentuada que a do Sul do País”.

O próximo passo agora, explica o empreendedor, é colher a primeira safra comercial da plantação, no final do ano, para abastecer o mercado nordestino e, mais tarde, fazer frente aos tradicionais concorrentes do Sul do País e de regiões da Argentina. A previsão é que a produção de maçã da Chapada Diamantina chegue a 200 toneladas, com custo inicial de R$ 0,90 o kg na entressafra. Números que fazem valer a aposta e o investimento na Bahia, uma vez que no período de oferta da maçã sulista o quilo do produto é fixado em R$ 0,50.

PRIMEIRAS MUDAS – A maçã na Bahia, cultivada pela empresa Bagisa S/A Agropecuária e Comércio, é da variedade eva, plantada em São Paulo e Minas Gerais. O processo de seleção que resultou na escolha da variedade está no fato de ela não exigir tanto frio quando as do tipo gala e fuji, cultivadas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, áreas tradicionais.

As primeiras mudas de macieiras foram plantadas como experimento, entre o final de 2005 e outubro de 2006. Apesar de os primeiros frutos já brotarem nos galhos finos, a área só deverá estar em plena carga após um período de quatro anos de plantio, quando será produzida uma média de 40 toneladas por hectare. Seguindo os passos do engenheiro, especialista em fruticultura, A TARDE Rural foi conhecer de perto o projeto, encravado no distrito de Cascavel, município de Ibicoara, sudoeste do Estado, a 492 km de Salvador. Ibicoara é vocábulo indígena que significa “buraco na terra”, “cova”. Coincidentemente, é assim que é feita a formação da muda da planta, com um “cavalo” forte (porta-enxerto) que se adap-ta bem à “cova”. Para que a planta não cresça mais que o ideal – que é de até 3 metros de altura, é enxertada uma espécie de maçã menos vigorosa, de pouco crescimento. “Quanto menor a copa, mais bonita e mais graúda a fruta”, explica.


“Esta área para a safra comercial foi plantada em outubro de 2006”, diz o engenheiro, informando que a variedade eva é acompanhada pela espécie princesa, que atua como polinizadora. “A princesa é uma maçã igual a todas as outras, porém melhora a eficiência de polinização”. A previsão de safra é a colheita de cinco quilos por planta. “Como são duas mil plantas por hectare, deveremos ter em cada um 10 mil quilos inicialmente e, em plena produção, 40 mil quilos por hectare na planta adulta”, explica, certo de que toda a produção atenderá ao mercado desabastecido.


Para que isso ocorra, a colheita deve começar em novembro e se estender até janeiro, período em que a maçã do Sul do País repousa em câmara fria. A medida conserva o fruto, mas não evita a perda de peso. Além disso, a concorrência tem mais custo com o frete. O engenheiro explicou que a idéia brotou a partir de visitas técnicas a propriedades da região onde são cultivadas em quintais fruteiras de clima temperado. Veio estalo. “Achei que a maçã também se encaixava nesse clima, e a confirmação está aí”, comemora.

Maçã brasileira conquista outros países

Segundo a engenheira agrônoma e pesquisadora Rosa Maria Valdebenito-Sanhueza, em artigo publicado no site da Embrapa Uva e Vinho, o cultivo da macieira é relativamente recente no Brasil.

Diz que, no início da década de 1970, a produção anual de maçãs era de cerca de 1 mil toneladas e que, com incentivos fiscais e apoio à pesquisa e extensão rural, o Sul do Brasil aumentou a produção em quantidade e em qualidade, fazendo com que o País passasse de importador a auto-suficiente e com potencial de exportação.

Citou levantamentos feitos pela Associação Brasileira de Produtores de Maçãs, onde se verificou que, na safra de 2001, aproximadamente 2.700 produtores estiveram envolvidos na cultura e a área plantada foi de cerca de 30 mil hectares, com produção estimada de 800 mil toneladas. Afirma a pesquisadora da Embrapa que a maçã brasileira conquistou consumidores de outros países, especialmente os europeus, e entre 10% e 20% da produção da fruta é exportada para vários mercados, em especial o europeu

JUSCELINO SOUZA