Câmbio valorizado inibe o plantio de algodão

21/06/2007

Câmbio valorizado inibe o plantio de algodão

País está colhendo maior safra da história, mas valor das cotações não cobre os custos. O Brasil está colhendo sua maior safra de algodão. A cada dia, com o avanço da retirada das plumas das lavouras, aumenta a expectativa de que a produção chegue à marca histórica de 1,5 milhão de toneladas. O investimento na lavoura em 2006 não compensou: tem produtor vendendo a preços abaixo do custo. Até aqueles que negociaram antecipadamente, com valores melhores, estão com a margem comprometida, devido ao câmbio. Com isso, fala-se em redução da área de 10% a 20% para a safra 2007/08.


"Caso os preços internacionais não se mantenham suficientemente firmes nos próximos meses, ficará cada vez mais consolidada a perspectiva de redução da área", diz Miguel Biegai Júnior, analista da Safras & Mercado. Para Marco Antônio Aluísio, da corretora Esteve S.A, além do preço, a concorrência com outras culturas, que estão mais remuneradoras, podem influenciar na decisão de plantio.


Na avaliação de Biegai Júnior, os patamares atuais de preços - por volta de R$ 1,15 a libra-peso - não estimulam o plantio, uma vez que o preço mínimo de referência do governo é de R$ 1,35 a libra-peso. Além disso, segundo ele os valores podem cair quando houver maior pressão da safra.

"Era para a gente estar vivendo uma euforia, pois o preço em dólar é fantástico", afirma Renato de Freitas, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Segundo ele, em função disso, teria a certeza de uma "explosão no próximo plantio", se não fosse o câmbio.

"O produtor engordou o olho para o preço de exportação. Só que não contava com o dólar", diz Biegai Júnior, explicando o aumento da área da safra passada para a atual. Os contratos de exportação foram negociados a valores de US$ 0,60 a US$ 0,64 a libra-peso. Hoje, convertidos para reais, seriam liquidados entre R$ 1,15 a R$ 1,23 a libra-peso, respectivamente. Muitos foram negociados quando o dólar estava em R$ 2,40. "Para o atual câmbio, o contrato tinha de estar em US$ 0,70 a libra-peso", afirma o analista.
Lucílio Alves, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), acrescenta, no entanto, que cerca de 70% da safra já foi comercializada. Ou seja, teoricamente, apenas 30% da colheita poderia ser vendida por patamares baixos. Além disso, segundo o pesquisador, metade da produção teve a subvenção governamental que apoia o escoamento.

Pelas estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção deste ano será de 1,33 milhão de toneladas, 10,39% maior que a anterior. "Na época da decisão do plantio, a soja estava em patamares que deixavam o algodão mais remunerador", diz Djalma Aquino, analista da Conab.

Até o momento cerca de um quarto da área cultivada foi colhida - sendo que Paraná e São Paulo já encerraram. Neste mesma época de 2006 eram 20% - o clima teria adiantado o ciclo das lavouras.

Em relação à última estimativa, a Safras & Mercado acrescentou 90 mil toneladas à produção. Mas o próprio analista admite que o número pode ser ainda maior. Segundo ele, este aumento se deve à maior área na Bahia e boas produtividades em Goiás e Mato Grosso.

NEILA BALDI