'Treasuries' permitem nova trégua geral
O maior mercado do mundo, o de negociações secundários com títulos do Tesouro americano, sobretudo o de 10 anos, deu uma trégua ontem. E autorizou uma recuperação dos mercados globais em geral. Aparentemente foram amortecidos os problemas mais emergenciais enfrentados por hedge funds desde o surgimento de indicadores ruins sobre o setor imobiliário americano. Mas trata-se de uma trégua, uma vez que tais players persistem megaalavancados. A de ontem foi o suficiente para a retomada da tendência principal dos segmentos domésticos: Bovespa em alta de 1,16%, dólar em queda de 0,72%, cotado a R$ 1,9160, e juros futuros em baixa.
Dólar, a R$ 1,9160, retoma via de baixa
Os juros dos treasuries de 10 anos permaneceram na faixa de 5,14% durante a maior parte do dia. Apenas perto do encerramento dos demais mercados, ocorreu um movimento de alta da taxa para 5,17%, mas sem afetá-los. O avanço dos treasuries abala os gigantescos portfólios formados com créditos hipotecários de alto risco. Os fundos são forçados a vender os T-10 em face da expectativa de que os fed funds (os juros básicos americanos) irão permanecer elevados, nos atuais 5,25%, por um longo período. As vendas reduzem o preço dos títulos e aumentam o seu rendimento.
A probabilidade de refinanciamento das hipotecas diminui muito e a duration do portfólio - o prazo médio das operações ponderado pelos fluxos de caixa. - fica mais longa do que o anteriormente esperado. A única forma de fazer a duration voltar aos níveis programados é diminuí-la por meio da venda de treasuries longos. Isto força os yields para cima. Como a curva de treasuries é o benchmark de todas as aplicações, os gestores globais fazem realocações em função deste custo. Como os hedge funds operam hiperalavancados, as posições sofrem quando o custo sobe e são obrigados a interromper as perdas. Na terça-feira, tudo piorou porque autoridades americanas sugeriram a necessidade de haver uma disciplina maior no mercado de operações compromissadas de revenda, o chamado mercado de repos.. Isso desencadeou um processo que os operadores chamam de "desalavancagem".
Mesmo a despeito dos sinais de que a farra da liquidez internacional pode não durar muito tempo, já que o mundo vive um momento de reaperto monetário geral, os fundos de hedge persistem com níveis lenientes de alavancagem. Nada parecido com o que fazia o fundo LTCM, cuja quebra, em setembro de 1998, desencadeou grave crise de liquidez. O LTCM financiava no mercado o equivalente a 130 vezes as suas posições, principalmente via repos. Atualmente, os níveis de alavancagem são menores.
A operação funciona assim: um banco de investimentos aceita emprestar a um hedge fund 90% do seu portfólio de títulos para que o fundo compre mais títulos. Se esta modalidade de financiamento no mercado aberto é repetida 10 vezes, o mercado diz que a alavancagem é de 10 vezes o principal. Quem controla a operação é o banco que empresta o dinheiro, tomando como garantia os treasuries. Acontece que com a taxa subindo, os T-10 perdem valor e podem iniciar chamadas de margem que obriguem os hedge funds alavancados a saírem das posições e a vender treasuries e outros títulos, levando ao que os especialistas chamam de uma "espiral cadente".
"Se as alavancagens são muito grandes, a espiral fica maior. Se as alavancagens forem pequenas, a espiral é apenas um soluço", explica um deles. As autoridades americanas querem que o mercado adote um código de auto-regulação. Se não fizer isso, elas podem agir. As turbulências recentes resultam desse processo de múltiplos ajustes, tanto ao juro básico dos EUA por mais tempo em 5,25%, quanto aos números negativos sobre o setor de habitação e às pressões dos órgãos reguladores.
O mercado de câmbio brasileiro vai a reboque do vaivém do processo de alavancagem e desalavancagem dos hedge funds. O Banco Central tentou desacelerar a sanfona especulativa por meio das medidas cambiais baixadas no dia 8, a sexta-feira posterior ao feriado de Corpus Christi, sem abrir mão das intervenções diretas: no final do dia, faz leilão de compra para enxugar o excedente de dólares e, uma vez por mês, rola os vencimentos de swaps reversos. Ontem, ele adquiriu US$ 280 milhões no leilão à vista das 15h30 e, no futuro, renovou os 32,3 mil swaps, no valor de US$ 1,53 bilhão, que irão vencer no dia 2. No mercado monetário, as quedas sofridas pelos contratos futuros foram pequenas. O CDI previsto para a virada do ano cedeu apenas 0,01 ponto, para 11,18%. O DI futuro refletiu, além da trégua externa, a segunda prévia de junho do IGP-M, menor que o previsto. Para uma expectativa média de 0,33%, o índice mostrou alta de 0,26%.