Após alta do gás, novo reajuste de 43% é estudado
O gás natural fornecido pela Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás) fica, em média, 2,45% mais caro a partir do mês que vem. É a fatura que cabe ao consumidor após a alta de 3,13% que a Petrobras repassou às concessionárias que distribuem o gás no País, localizadas principalmente no Norte/Nordeste.
O anúncio surpreendeu o mercado, que ainda não digeriu o último reajuste na cotação do combustível, aplicado ainda em maio passado, quando houve aumento de 20,12% no preço do produto.
O próprio presidente da Bahiagás, Davidson Magalhães, confessou perplexidade diante do novo índice, mas prevê algo ainda pior para o ano que vem. “Apesar do recente aumento, o gás natural ainda é competitivo, em relação a outros energéticos.
O problema é que a Petrobras está trabalhando com uma fórmula que prevê um reajuste de 43%, que seria aplicado às distribuidoras em maio de 2008”, antecipa o executivo. Magalhães observa que a expectativa do superreajuste é nutrida pela perspectiva de uma nova crise no setor elétrico entre 2009 e 2010, o que empurraria o mercado para a geração de energia elétrica a partir do gás natural, com vistas a evitar um apagão elétrico.
Com isso, a revisão das posições da petrolífera brasileira em relação às cotações do gás natural vem na esteira de maiores investimentos em incremento no fornecimento, que teria que ser progressivamente alavancado a cerca de 70 milhões de metros cúbicos diários até 2011, ante a uma produção atual que pouco ultrapassa os 40 milhões de metros cúbicos por dia. Outra questão que preocupa o consumidor baiano é que a lei da oferta e demanda seja aplicada ao mercado do combustível no Estado.
Embora a Bahiagás trabalhe com a estimativa de uma demanda reprimida de 1,6 milhão de metros cúbicos ao dia, saldo que seria compensado em menos de dois meses pelo abastecimento bombeado a partir do campo de Manati, o mercado teme que a oferta não comporte a expansão da demanda, e conseqüentemente ocorram revisões ainda mais acentuadas nos preços.
O professor de planejamento estratégico do curso de administração da Universidade Salvador (Unifacs), Adary Oliveira, alerta para o fato de que, proporcionalmente, a Bahia é a unidade da federação na qual a participação do gás é mais presente na matriz energética, com 16%. O especialista observa que grande parte da produção de Manati pode ser revertida para a própria Petrobras, que usa o gás natural como insumo para a produção de uma série de produtos, como uréia e amônia, o que agravaria o vácuo no fornecimento.
“O aumento dos preços do gás natural ainda pode reduzir a competitividade da indústria petroquímica, que usa o insumo em larga escala”, observa Oliveira. Após ter investido cerca de R$ 2,4 mil na conversão do seu automóvel de trabalho para o gás natural, o taxista Miguel Souza Cruz se pergunta até quando deixar de usar álcool ou gasolina vai ser mais barato na comparação com o combustível. “Comecei pagando R$ 0,50, agora vem mais um aumento”, lamenta o motorista.
Ele observa que ainda vale a pena usar o combustível, pois estima uma economia de 50%, na comparação com gasolina. Já o diretor de rádio Fernando Henrique Chagas observa que, apesar da relativa vantagem econômica de se usar o gás natural, os aumentos nos preços são danosos ao consumidor, que ainda tem que arcar com manutenção do veículo. “Principalmente para quem pega muita estrada como eu”, observa Chagas.
O diretor-executivo do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo da Bahia (Sindicombustíveis), Marcelo Travassos, observa que o recente aumento pode jogar um balde de água fria na expansão do mercado de conversão de veículos para o uso do gás natural. “Ainda assim, afirmamos a competitividade do gás natural, em relação aos outros combustíveis”, observa. Ele informa que, para percorrer 100 km, o motorista de um carro de passeio gastaria hoje R$ 22,3 em gasolina, R$ 21,05 em álcool e apenas R$ 9,5 em gás natural. O gás natural é um combustível fóssil encontrado em reservatórios profundos no subsolo, associado ou não ao petróleo. É de queima mais limpa que os demais combustíveis fósseis.
LUIZ SOUZA