Peixes da moqueca baiana são criados em cativeiro
Prato preferido pela maioria dos baianos, a tradicional moqueca de peixe corre o risco de perder um de seus ingredientes principais, o próprio peixe, neste caso vermelho, garoupa e robalo, presentes não apenas nesta receita como também no preparo do ensopado e do escabeche. O problema é que essas espécimes estão escasseando no litoral baiano por excesso de pesca. A má notícia foi confirmada por um trabalho de graduação em biologia, da recém-formada Viviane Vasconcelos, na Universidade Católica do Salvador (Ucsal), realizado com dados da Bahia Pesca, com a colaboração de pescadores artesanais, peixeiros e consumidores, que, em sua maioria, ignoram a situação e não pensam em mudar os hábitos de pesca, preparo e alimentação.
O objeto do trabalho de monografia tratou de peixes dos recifes que rodeiam a Baía de Todos os Santos, sob o risco de extinção nessas áreas e o colapso da pesca local. “O problema é que os baianos exigem esses peixes. Em minha pesquisa sugeri como alternativa de consumo espécies do tipo pelágico (de alto-mar), que não são utilizadas comumente na moqueca, como o beijupirá. Também considerei a possibilidade de a troca ser feita pelo pescado branco ou amarelo, além do linguado. Mas muitos dos entrevistados consideram que estes são ou difíceis de achar ou não são de ‘primeira’”, explicou Viviane Vasconcelos.
Esta predileção do baiano pelos peixes, de tipo demersal (vivem próximo de recifes), torna difícil evitar a extinção total, porque estes crescem mais lentamente e demoram para amadurecer sexualmente, explica a pesquisadora. Desta maneira, a intensividade da pesca não permite que atinjam a maturidade e o que se vêem são peixinhos cada vez menores. “O ideal seria que órgãos públicos adotassem uma política educativa para que os pescadores buscassem outras alternativas menos danosas”, indica Viviane.
PIONEIRISMO – Além de apelar para a consciência do consumidor final, algumas linhas de pesquisa apontam soluções para o problema. O biólogo e pesquisador da Bahia Pesca José Jerônimo, com mestrado em aqüicultura pela Universidade Federal de Santa Catarina, desenvolve um trabalho pioneiro sobre a reprodução de robalo em cativeiro.
O resultado prático obtido foram alevinos (filhotes) do peixe que, depois de engordarem e crescerem, poderão repovoar os estuários da Baía de Todos os Santos a partir de 2008.
O robalo é um peixe do tipo pelágico – vive nos oceanos –, mas procura águas costeiras para alimentação.
Os criados em laboratório chegaram a apresentar entre seis e oito quilos. Os primeiros exemplares criados em laboratório foram trazidos por pescadores artesanais desde o final de 2003 e pesavam cerca de 20 g. Um animal na natureza chega a 23 kg, entre 10 a 15 anos. A maturidade sexual da fêmea acontece aos três anos e a do macho aos dois anos, mas, até agora, já aconteceram 11 desovas em cativeiro.
Sua estrutura normal, por ser do tipo nadador, é a de ter textura mais dura e pouca gordura. Mas testes gastronômicos feitos com exemplares do laboratório mostraram que a textura da carne ficou mais macia, com aumento visível da gordura. O pesquisador também começa a desenvolver uma linha de pesquisa no mesmo sentido, mas para reproduzir os vermelhos em cativeiro.
CUSTO – O robalo é um peixe cuja criação em fazendas representa um custo baixo, principalmente para quem já cria camarões de cativeiro, porque eles também vivem em água doce. José Jerônimo explica que não existem fazendas marinhas no Estado da Bahia e apenas três grandes fazendas dedicam-se à criação de camarões. O pesquisador avalia que os custos para reprodução são muito altos, principalmente porque a mudança de embrião para alevino requer várias trocas de ração.
Mas a Bahia Pesca, além de planejar o repovoamento a partir de 2008, também deverá vender os peixes em fase de crescimento para empresários que desejem entrar nesta atividade. José Jerônimo disse que, além da pesca intensiva na Baía de Todos os Santos, outros fatores como poluição, rede com malha fina e a pesca com bomba também reduzem os cardumes a cada ano.
O pesquisador concorda com a necessidade de elaboração de um projeto educacional para conscientizar os pescadores e a população. A Bahia Pesca, explica ele, não possui esta atribuição, tratandose de uma agência de fomento. Entretanto, por reunir pesquisas e trabalhos nesta área de criação de peixes em cativeiro poderia contribuir com entidades publicas e privadas que necessitassem de dados específicos sobre este assunto, ressaltou o pesquisador e biólogo.
BEIJUPIRÁ – Outra linha de pesquisa inclui o peixe beijupirá. Diz a lenda que quem pesca um beijupirá deve hastear uma bandeira branca ou vermelha, como sinal de reverência. Afinal, é uma honra e tanto fisgar o animal conhecido como o “rei dos peixes”.
O apelido surgiu muitos anos atrás dado pelo pescadores nordestinos ao perceber que o beijupirá não nada em cardume – segue solitário, poucas vezes em dupla e outras infiltrado entre outras espécies.
Famoso e cobiçado no Nordeste, onde é mais visto devido as águas quentes da região, o beijupirá é encontrado em ilhas, próximos a costões, lajes, parcéis, em mar aberto e estruturas isoladas. Durante o outono e inverno, porém, ele alcança grandes distâncias.
No Brasil, o peixe oceânico percorre desde o Amapá até o Rio Grande do Sul, sem pontos específicos, o que o faz muito difícil de ser encontrado. O pesquisador explica que vem desenvolvendo esta linha de estudos sobre o beijupirá, peixe mais conhecido pelo folclore em torno do fato de ser raro, e possuir um sabor diferenciado. Outras pesquisas vêm sendo feitas nos Estados Unidos, em Taiwan e no Vietnã, para tornar viável a criação deste peixe que, na natureza, é muito solitário, sendo mais comum recolher, no máximo, dois exemplares a cada incursão de pescadores em águas produndas.
MARJORIE MOURA