Cacauicultor tem dívida prorrogada

12/07/2007

Cacauicultor tem dívida prorrogada

As parcelas das dívidas dos cacauicultores que vencem no próximo domingo estão prorrogadas até o mês de dezembro. A decisão foi tomada ontem em reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN), e comunicada pelo secretário do Ministério da Fazenda ao ministro da Integração Regional, Geddel Vieira Lima, que hoje estará em Salvador acompanhando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“É um alívio”, disse Geddel, que também é cacauicultor e tentou fazer com o presidente Lula, em sua visita a Bahia, anunciasse alguma coisa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Cacau, mas ouviu do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que o projeto ainda está em fase de elaboração e há muitos pontos em aberto. Estima-se que as dívidas dos cacauicultores ultrapasse a casa dos R$ 800 milhões.

Os cacauicultores reclamam que no início da praga da vassourade-bruxa, quando a Ceplac não tinha técnicas para enfrentar o problema, foram induzidos a tomar empréstimos em bancos para podar e adubar os cacauais, uma orientação que saiu completamente pela culatra: ampliaram suas dívidas e os problemas biológicos nas plantas, já que o fungo da vassoura foi adubado.

Nas discussões preliminares em torno do PAC do Cacau discutese sugestões como parcelar as dívidas para pagamento em 20 anos. Mas há outra questão: agora, que o problema biológico no combate a vassoura está praticamente resolvido, falta preço para o cacau, no rastro da questão cambial. É cotado cotado em dólar e o dólar nunca teve tão baixa cotação histórica, a menos de R$ 2.

Uma das coisas que já está definida no PAC é que a Ceplac mudará de perfil. Permanecerá na Bahia, mas será alguma coisa como uma espécie de departamento do Ministério da Agricultura, enquanto o cacau passará a ter tratamento igual ao de outras culturas como café, soja e cana-de-açúcar. No mais, está tudo embrionário.

SEM EMPOLGAÇÃO — Os produtores de cacau do sul baiano receberam sem empolgação o anúncio doMinistério da Agricultura, relativo ao adiamento do início do pagamento de dívidas dos cacauicultores, adquiridas para investimentos na produção. “Trata-se de apenas mais uma medida paliativa. O que precisamos de fato é de dinheiro novos financiamentos”, resume o presidente da Associação de Apoio à Reestruturação da Região Cacauiera (Comacau), José Carlos Soares.

O sul baiano ainda aguarda o anúncio presidencial de novos investimentos na lavoura cacaueira. A expectativa é que os recursos saiam dos R$ 2,2 bilhões do PAC, previstos para a região do sul do Estado. Os agricultores têm a esperança de que sejam fornecidas linhas de crédito a partir dos recursos, ainda que tenham uma dívida com os bancos oficiais de pelo menos menos R$ 800 milhões.

O presidente da Central Nacional do Cacau, Wallace Setenta, acrescenta que a preocupação dos produtores do sul baiano é a próxima safra, prevista para o período de agosto deste ano a abril de 2008. Se os financiamentos não vierem a tempo, os agricultores poderão amargar retração na produtividade, atualmente cotada em máximas 20 arrobas por hectare, algo considerado baixo, para os padrões da região.

Mas, ainda que venham novos investimentos, a tendência da próxima colheita é de queda, acreditam os agricultores. A previsão da Comacau é que a próxima safra alcance cerca de 90 mil toneladas, contra pelo menos 145 mil toneladas da safra 2006/2007. Os produtores da região sul estão abandonando as terras, mesmo com prejuízo, para se dedicarem a outras atividades, observa. Neste contexto, o benefício do adiamento dos pagamentos das safras anteriores só beneficiaria cerca de 30% dos produtores locais, aponta Soares.

Apesar da solicitação dos produtores, para que o governo federal forneça condições de contrair novos empréstimos, uma corrente de pesquisadores acredita que apenas o dinheiro não é a questão principal. “Houve períodos nos quais os produtores foram financiados, mas não receberam a devida assessoria para gerenciar os empréstimos”, observa Cristiane Aparecida de Cerqueira, professora do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), instituição de ensino localizada no sul do Estado. A professora acredita que apenas a partir de uma assessoria relacionada ao uso e investimento do crédito, a região se beneficiaria de novos investimentos.

LEVI VASCONCELOS E LUIZ SOUZA