Da cidade para o campo

23/07/2007

Da cidade para o campo

Distantes da cidade, afastados de jogos eletrônicos e bate-papo em lan houses e alheios às facilidades do celular, dezenas de jovens de Vitória da Conquista trocaram a zona urbana pela rural, para tocar projetos agrícolas que garantam renda e cidadania. A mudança de hábito, que contraria a tradição de o jovem deixar a roça e se mudar para a cidade, é cada vez maior, na busca de atividades com floricultura, avicultura e horticultura. Não é raro encontrar esses jovens na lida com animais de pequeno e grande portes


A procura por cursos profissionalizantes ou de graduação nessas áreas tem crescido cerca de 30% nos últimos cinco anos, segundo informações da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e Escola Agrotécnica Sérgio de Carvalho (Easc). As instituições estaduais oferecem opções nas áreas de técnicas agrícolas e graduação em zootecnia e agronomia. “Resolvi trocar a cidade pela roça, por acreditar que a solução para os problemas econômicos está na agricultura”, crê o estudante Nelson Amaral.

Não há dados oficiais, mas o Sindicato dos Trabalhadores Rurais estima em mais de 30 mil o número de jovens que já trabalham no campo, seja auxiliando a família ou por conta própria. Entre eles, está Suzana da Silva Santos. Com 18 anos de idade, ela fez um curso em avicultura, lançado pela Prefeitura de Vitória da Conquista, com suporte técnico da Uesb, Sebrae e as secretarias estaduais de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais e Agricultura, no distrito de José Gonçalves, com outros 20 matriculados.


Esta será sua primeira atividade profissional e ela vislumbra uma participação no mercado distribuidor.“Vou poder ajudar na renda da minha família e, logo, poderei vender para outras lugares”. Foram dadas orientações – para a utilização de um kit entregue durante o curso – por técnicos da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Universidade do Sudoeste. “A gente não entendia e o instrutor soube nos ensinar as técnicas”. A atividade é organizada pela Coordenação do Curso de Avicultura do Programa Juventude Cidadã da Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio da Agência de Desenvolvimento, Trabalho e Renda.


O presidente da agência, Elinaldo Leal, disse que o projeto prevê a iniciativa, seja de forma coletiva ou individual. “Essa parceria possibilita a inclusão de 20 jovens. O kit é importante para dar condições aos educandos de começar um negócio próprio em sua residência”. O instrutor do curso e professor da Uesb, Adauto Gigante, alerta para as dificuldades da atividade, especialmente na alimentação e venda das aves. Nada que demova os jovens de continuar sonhando com a independência, mas para garantir qualidade e sucesso.


O programa geral pretende atender a mil jovens, de 16 a 24 anos. Metade deles já foi alcançada, segundo a coordenação. “Os jovens estão conscientes e com força de vontade para desenvolver esse pequeno criatório, visto que é muito difícil o jovem sair para arranjar emprego na cidade. Com esse empreendimento é possível ter uma renda”, diz Adauto Gigante.

Floricultura também entra na pauta

Os jovens também são responsáveis pela retomada da floricultura, uma atividade que tornou Vitória da Conquista conhecida na década de 1970 como a “cidade das rosas”. Atualmente, 13 jovens atuam no Programa Flores da Bahia, uma parceria da Prefeitura de Conquista com o Sebrae e as secretarias estaduais de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais e de Agricultura.

A produção mensal de cinco mil dúzias, em sistema de cooperativa, é concentrada em 30 estufas, das quais, 19 destinadas às rosas, duas para gérberas e as demais para folhagens. A renda média é de R$ 500 para os jovens produtores de flores da Cooperativa de Jovens Produtores de Flores de Vitória da Conquista, que produz diversos tipos de rosas, além de folhagens.

A maior parte da produção é adquirida pelo mercado interno, com abertura ao mercado externo a partir da implantação de novas estufas. “Toda a Bahia vai conhecer nossas rosas, principalmente Salvador, que já nos procura para saber mais sobre o produto”, destaca o presidente da cooperativa, Valmirá Ferreira Santos.

A atividade também foi o primeiro emprego da cooperada Maria do Carmo Gomes. Em meio às roseiras, ela fala com entusiasmo sobre a oportunidade surgida e a experiência adquirida na cooperativa. “É uma atividade rural, mas a gente foi se adaptando e hoje todos sabem as técnicas de plantio. Estar na cooperativa significa saber que tudo é dividido por igual, desde tarefas até a remuneração”.

Ele destaca o papel dos parceiros no sucesso do programa, enfatizando a participação do Sebrae como agente de capacitação. “Quando chegamos, não sabíamos nada sobre flores e hoje estamos como produtores, produzindo rosas, gérberas e folhagens com qualidade.” A dona de floricultura Vera Lúcia Cremasco Silva, há 30 anos na atividade, disse ter ficado impressionada com a “ótima qualidade das rosas” produzidas em Conquista. “Falta uma maior produção, mais variedade e preço diferenciado para fazer frente ao mercado de São Paulo”, sugeriu.

JUSCELINO SOUZA