Jaqueiras derrubadas no Recôncavo para fabricação de móveis

23/07/2007

Jaqueiras derrubadas no Recôncavo para fabricação de móveis

Troncos de jaqueira (Ar tocarpus integrifolia L.) são usados largamente na fabricação de móveis e embarcações, em Santo Antônio de Jesus, sob a alegação de escassez de madeira de lei nas florestas da região. Aumentou o número de fábrica de móveis rústicos e o corte da madeira ocorre, também, em Cruz das Almas, Laje, Muritiba, São Felipe e Sapeaçu.

Sua cor branco-amarelada, que fica escura quando exposta aos raios solares, assemelha ao mogno. É uma das madeiras que não produzem oxidação no contato com metais, daí a utilização na construção de embarcações. Por ser frutífera e forrageira, a jaqueira não tem proteção ambiental do Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

De acordo com o chefe do Ibama em Santo Antônio de Jesus, Fernando Cury, o corte da jaqueira não é crime. Ele garante que, em parceria com o Ministério Público, o escritório regional tem procurado conscientizar para os riscos do corte indiscriminado. “As pessoas são levadas ao MP para assinar um termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e se responsabilizam pelo replantio, no caso de extração da árvore”, esclareceu.

O analista ambiental do Ibama Alberto Santana destaca os benefícios da jaqueira, que, além de produzir sombreamento para as pastagens, é abrigo da fauna e alimento do homem e do rebanho. “Para cada árvore extraída, devese plantar quatro da mesma espécie”, orienta o especialista, citando que, no caso da jaqueira, o caroço pode ser cozido, o bago consumido in natura e o bagunço utilizado como forragem na alimentação do gado bovino.

FÁBRICA DE MÓVEIS – O aumento de fábricas de móveis e artefatos semelhantes e esquadrias tem preocupado ambientalistas, pela derrubada em grande escala de árvores. “Ao lado do aumento na extração da madeira não ocorre nenhum programa de replantio da espécie, uma excelente fonte de alimento para mamíferos e aves da fauna local”, diz, preocupado, o professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Paulo Cezar Lemos de Carvalho, doutor em botânica.

Ao longo da BR-101, próximo ao entroncamento de Laje, inúmeras carpintarias e barracas exibem móveis rústicos, para atrair a atenção de quem passa pela rodovia. O tronco seco da jaqueira foi transformado em mesas, camas, cadeiras, bancos e objetos de decoração, confeccionados, também, por pessoas que residem nas proximidades da estrada. “A gente só melhora a forma que a madeira tem. Os pés de uma mesa saem do próprio tronco. É uma madeira duradoura, não racha e seu uso está liberado”, diz o carpinteiro Railton Silva Santos.

A madeira da jaqueira é retirada das matas da região. “Compramos os troncos de donos das roças e o preço depende do tamanho. Varia de R$ 50 a R$ 1 mil. Mas a gente só trabalha com madeira morta e seca”, garante Anaíldes Neves dos Santos, dona de uma carpintaria. Os móveis rústicos chamam a atenção pelas formas criadas. Uma mesa varia de R$ 300 a R$ 1 mil, uma cama de casal custa R$ 2 mil e um banco simples, R$ 250.

Se, por um lado, o uso da jaqueira evita a utilização de madeiras nobres das matas, seu abate indiscriminado preocupa os ambientalistas. “As jaqueiras estão sendo utilizadas na produção de madeira para a indústria de móveis e carpintaria. Na maioria dos municípios, a jaqueira era cultivada para produção de frutos. Sua derrubada acontece sem nenhum replantio”, diz Lourenço Paz de Sena, estudante de botânica da Escola de Agronomia, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Na sua opinião, a jaqueira poderia ser estudada para um possível processo de revitalização do São Francisco.

Recentemente, a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, localizada em Cruz das Almas, visando a preservar a população de jaqueiras e reduzir os riscos de devastação ambiental, distribiu mil mudas da árvore aos produtores da região do Recôncavo. A medida foi uma iniciativa do pesquisador Ygor Coelho. “Além de recompensar o abate das árvores, estamos esclarecendo sobre os riscos de desequilíbrio ambiental”, explica o pesquisador, responsável pela Área de Produção de Material Básico da Embrapa.

A jaca é importante fonte alimentar para o homem e animais domésticos

Segundo o professor Paulo Cezar Carvalho, as folhas da jaqueira são consumidas pelos bovinos da mesma forma que os frutos “Estes frutos, no dizer do homem do campo, apresentam quatro estágios, verde, inchado (prestes a amadurecer) e maduro, e não somente os bovinos, também asininos, eqüinos, muares, suínos e aves consomem estes frutos, maduros ou cortados em pequenos fragmentos quando ainda inchado”, informou o professor.

A jaca é uma importante fonte alimentar para seres humanos, sendo consumida várias vezes ao dia por muitas pessoas do campo, informa o professor Paulo Cezar Carvalho. “É comum o trabalhador rural se encaminhar para a atividade diária com a enxada no ombro e uma jaca na mão, que será consumida normalmente às 9 horas e ao meio-dia“, ressaltou.

Em determinados locais, a jaca chega a ser a única alternativa alimentar para várias famílias no campo e em áreas periféricas de cidades do Recôncavo baiano. A inclusão desta espécie em programas de reflorestamento ao lado das espécies nativas poderá ao mesmo tempo atender à demanda de sua madeira e constituir uma excelente alternativa alimentar para a fauna silvestre.

Além da confecção de móveis e esquadrias, a madeira da jaqueira vem sendo usada para alimentar as fogueiras juninas. “Pode-se afirmar que ela constitui a principal fonte de lenha nesta época”, completa Paulo Cezar Carvalho. Segundo o professor e botânico, às vezes, se justifica a utilização da jaqueira com o argumento de que a madeira foi retirada de árvores mortas, o que nem sempre é v erdadeiro .

“Isso porque muitas fogueiras são planejadas em janeiro e fevereiro com a derrubada total ou parcial de plantas vivas em pleno desenvolvimento. Mesmo as árvores mortas devem ser analisadas antes da derrubada, por serem verdadeiros ecossistemas, abrigando diversas espécies de bromeliáceas, cactáceas, orquidáceas e pteridófitos, além de servir de moradia para vários mamíferos, anfíbios e répteis que se aninham dentro das bromélias”, salientou o professor. Da jaqueira tudo se aproveita, à exceção do látex, que ainda carece de utilização, merecendo um estudo mais aprofundado, com vistas à utilização industrial.

ANELAMENTO – Segundo o analista ambiental do Ibama Alberto Santana, no Recôncavo, pequenos produtores sacrificam a árvore, usando o método do anelamento (retirada da camada superficial na parte inferior do tronco para morrerem lentamente). “Com isso, a árvove definha e morre, porque a seiva não circula. Em seguida, após um tempo, procuram o Ibama e pedem autorização para comercialização e transporte”. Disse que a árvore passou a ser sacrificada e está em processo de extinção

Na Bahia, encontra-se em todas as regiões

Originária de regiões da Malásia, a jaqueira foi trazida para o Brasil pelos portugueses já na fase da colonização. Na Bahia, a árvore é encontrada em todas regiões do Estado. Seus frutos são consumidos ao natural ou processados, na forma de doces, compotas, polpas congeladas, refrescos, sucos e bebidas. A árvore cresce muito, podendo chegar a 20 metros de altura. A copa é densa e oferece boa sombra. Da jaqueira tudo se aproveita, os gomos (ou favos) são ricos em açúcar, vitaminas do complexo B, e no período do verão alimenta tanto o homem quanto os animais.