Uma terapia que também dá lucros financeiros
Agricultura familiar com trabalho voltado para os produtos orgânicos assume lugar relevante na economia de diversas cidades do Estado.Em Juazeiro, a zona urbana tem, há pelo menos duas décadas, exemplos de trabalho intenso e que vem gerando emprego e renda para centenas de famílias. No bairro João Paulo II, 108 famílias que vivem do cultivo de hortaliças em uma área de 3,8 hectares, doada pela diocese local, descobriram uma forma de trabalho que, além de representar sobrevivência ou ajudar no orçamento, adquire ares de terapia e boa convivência com a idade avançada. Com 85 anos, a figura pequena de Antônio Manoel dos Santos, ao longe, é vista curvada sobre a horta de sua propriedade. Natural de Serra Talhada (PE), ele vive da agricultura desde criança. Na área verde há coentro, cebolinha, alface, alface americano (que tem folhas maiores e mais espessas), couve, escarola, cenoura, beterraba, berinjela, jiló, milho, mostarda, salsa e ervas medicinais.
PARCERIA – É da venda desses produtos queMaria JoséMarques de Souza, 58 anos, há 19 anos trabalhando na horta orgânica e comunitária do bairro, vive com marido e filhos. Diz que o adubo usado é à base de esterco animal e resíduo de café. Alguns defensivos são usados somente em casos “absolutamente extremos”, explica Moacir Nunes, técnico do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), parceiro do projeto, dando apoio técnico. Segundo ele, pelo tempo de cultivo dessa horta, especificamente, o solo já adquiriu firmeza e não transmite doenças para os produtos. “Já existe equilíbrio e, mesmo que apareça alguma doença, não atrapalha o cultivo”, garante ele. Para Maria José, a atividade nas hortas ajuda no orçamento familiar.Nos 3,8 hectares da horta do João Paulo II, os lotes são distribuídos de maneira que as 108 famílias tenham, cada uma, sustento individual. Vários tanques de água estão distribuídos nos lotes e vem da Adutora da Caraíba gratuitamente – acordo feito entre a empresa mineradora e a diocese para que os pequenos agricultores pudessem ter seu sustento de maneira a não ter despesas tão altas com consumo de água.
“O sistema de molhação ainda é o regador manual, mas estamos lutando para conseguir transformar em irrigado, pois com isso as famílias ganhariam muito mais tempo para desprender em outras atividades e sobraria tempo, inclusive, para estudar e participar de capacitações”, esclarece Moacir Nunes. Ele diz que o Irpaa entra com vários cursos para os agricultores. “Fazemos visitas com capacitações de gestão, comercialização e beneficiamento dos produtos cultivados”, afirma. Diz, também, que o processo de beneficiamento é desenvolvido no Centro de Treinamento de Vargem da Cruz, mantido pelo Irpaa, onde já se beneficiam frutas como manga e umbu.
A idéia é também explorar o beneficiamento das hortaliças com desidratação, mas ainda tem-se pouco produto e é preciso estabelecer alguns critérios para chegar até o produto das hortas da cidade.A Empresa Baiana de Desenvolvimento Agropecuário (EBDA) trouxe à Feira Nacional da Agricultura Irrigada (Fenagri) realizada em Juazeiro uma novidade que poderá ajudar os agricultores. Um secador solar para desidratação de frutas, ervas e hortaliças desenvolvido pela Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz (Esalq) é “de fácil utilização e muito apropriado para a agricultura familiar”, segundo Hélio Arandas. Para a empresa, além do baixo custo para a sua fabricação, o equipamento não tem custos com manutenção, já que o sol é sua única fonte de energia. Durante a feira houve demonstrações de secagem com degustação de frutas como abacaxi, banana e manga-passa, de tomate e de ervas medicinais.
CONSUMO LOCAL – O agricultor Antônio Barreto da Silva, 61 anos, com quatro lotes de hortaliças na área do João Paulo II há nove anos, diz que esta é sua atividade desde que saiu de uma empresa de fruticultura irrigada onde trabalhou por 11 anos. “Aqui, cada um de nós cuida do seu lote e todos vivemos bem, todos nós temos trabalho para a família”, conta. Na área da horta, a atividade é constante, com funcionamento das 5 às 11 horas e das 14 às 18 horas, mas, para muitos, se não tivesse horário estabelecido, ficariam lá por muito mais horas, já que “o trabalho é satisfatório e relaxante”.
As hortaliças produzidas na horta comunitária do bairro – o mais populoso de Juazeiro, com cerca de 30 mil habitantes – são consumidas pelos moradores do João Paulo II e bairros adjacentes e, também, por consumidores que moram no centro, a uma distância de 12 quilômetros. “Muita gente vem pegar os produtos aqui, mas nós também mantemos um serviço de entrega em domicílio”, informa Maria José. Ela diz que proprietários de restaurantes da cidade fazem questão de comprar os produtos orgânicos e estampam marcas de 100% natural em seus cardápios, diante da procura por alimentos saudáveis e sem uso de agrotóxicos.
“Eles sabem que os produtos que saem daqui são de qualidade, não existe veneno e isso ajuda a venda”, afirma. É dessa venda que vive hoje o agricultor Fábio dos Santos, de 22 anos, que aprendeu o ofício com a família. Neto de Antônio Manoel dos Santos, o agricultor Fábio é casado e aguarda o nascimento do primeiro filho. “Com o cultivo aqui na horta, conseguimos retirar aproximadamente R$ 70 por semana e vamos lutando para sobreviver com nosso trabalho”, assegura, ao lado do avô, que é o mais velho agricultor da horta comunitária. Todos os agricultores que vivem do plantio na horta pertencem ao bairro João Paulo II e o sistema organizacional funciona sem desavenças ou atritos, com todas as pessoas trabalhando em harmonia no sentido de viabilizar uma alternativa a mais no orçamento familiar e proporcionar a cada uma das 108 famílias uma vida melhor.
Experiências com bons resultados
Os mesmos municípios que recebem assistência do Instituto da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) fazem parte do projeto de Hortas Orgânicas Pedagógicas, que tem cinco direcionamentos de atuação: a técnica – com produção orgânica, tecnologias sociais, energia renovável para aumento de produtividade e agregação de valor; a social – com a educação, saúde e inclusão social; a financeira – de microfinanciamento para produção e agregação de valor; e a ambiental – que explora a agricultura orgânica, uso sustentável dos recursos naturais e a comercial, usando acesso a mercados, para que o projeto possa intensificar o trabalho da agricultura orgânica com a formação de lavradores e professores dentro da proposta de convivência com o semi-árido.
Os resultados das experiências têm sido satisfatórios e a idéia é ampliar o que já acontece em diversas áreas do semiaacute;rido, como parte de uma proposta de trabalho de convivência com o semiaacute;rido. Na zona urbana, tal qual na zona rural, é possível empreender projetos para adequar a vida de cada agricultor às atividades de cultivos que podem ser facilmente implantadas em áreas que não estão sendo utilizadas, como era o caso dos 3,8 hectares do bairro João Paulo II, que hoje é responsável pela sobrevivência de aproximadamente 600 pessoas diretamente. Para o Irpaa e os agricultores, a experiência assinala uma vivência que traz o trabalho, a responsabilidade social, o engajamento comunitário e a certeza de viver do trabalho familiar e da agricultura orgânica. “Não sei o que seria de nós se não fosse essa horta. Muitos não encontram emprego e outros tantos não têm mais idade para ser empregado nas empresas. O futuro de nossos filhos e netos ficaria sem rumo. Hoje temos como pensar em dias melhores, pois temos terra, trabalho, apoio técnico e renda”, concluem os agricultores, pensamento único sobre as hortas.