Falta de boi gordo eleva preço e paralisa frigorífico no MT
Preço da arroba atingiu ontem R$ 63,44, o maior valor nominal já registrado em 13 anos de levantamento
O ciclo de fartura de boi para abate no Brasil pode ter alcançado o limite. O preço da arroba atingiu ontem o maior valor nominal da série histórica apurada desde 1994 pelo Centro de Estudos em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP). Segundo o indicador Esalq/BM&F, o valor à vista atingiu R$ 63,44.
Ao mesmo tempo, o Friboi, maior frigorífico do País, anunciou que foi obrigado a dar férias coletivas de 20 dias para os 1.250 funcionários da unidade de Campo Grande (MT). A empresa alega falta de animais para completar as escalas de abate. O Friboi não confirma, mas há rumores de que o problema da falta de animais pode paralisar também outra unidade da empresa, localizada em Presidente Epitácio (SP), onde trabalham 1.556 funcionários. A instalação, habilitada para a exportação, tem capacidade para abater 1.050 bois por dia e processar 160 toneladas de carne diariamente.
Em Araguari, no Triângulo Mineiro, o Frigorífico Mataboi cancelou o plano que já havia sido implantado para o segundo turno de abate na unidade. A contratação de mais trabalhadores permitiria elevar a capacidade de abate de 1,2 mil animais para 1,5 mil abates por dia. 'A falta de animais nos obrigou a cancelar o plano', diz Claudio Pimenta de Castro, gerente da empresa. A interrupção fez o Mataboi dispensar 270 trabalhadores. 'Optamos por não renovar o período de experiência de algumas trabalhadores e decidimos não segurar aqueles que desejam sair', diz Castro.
ESCALA CURTA
Vários frigoríficos admitiram semanas atrás a dificuldade de formar as chamadas escalas de abate. A compra de animais que acontecia 15 dias antes do abate em algumas unidades, caiu para 7 dias e agora esta entre dois e três dias. É o caso do Mataboi, que compra animais para matar entre 48 e 72 horas. A empresa enfrenta a mesma dificuldade em Rondonópolis (MT), onde mantém um frigorífico com capacidade para abater 250 bois.
O problema pode se agravar nas próximas semanas, já que a pecuária ainda não alcançou o auge da entressafra. A esperança do setor é a entrada dos animais que estão em confinamento no mercado, o que pode acontecer entre o final deste mês e o início de setembro.
Observado de uma perspectiva mais ampla, a falta de boi que começa a ser constatada no mercado brasileiro pelos frigoríficos pode estar relacionada ao longo período de baixa de preços da arroba. 'Foram anos em que o custo de produção subiu enquanto o preço da arroba caiu. Houve um enorme desestímulo para o investimento no setor nos últimos anos', explica Sérgio De Zen, professor da Esalq e pesquisador do Cepea para a área de pecuária de corte e de leite.
O descasamento entre custo de produção e a remuneração provocou um enorme êxodo da atividade pecuária nos últimos anos. A cana-de-açúcar foi a cultura que mais avançou sobre áreas de pastagem, aproveitando a decisão de pecuaristas tradicionais de abandonarem a atividade e cederem grandes extensões de terra para a formação de canaviais. 'Agora está chegando o ponto em que os produtores estão cobrando mais rentabilidade para ficar na atividade', diz De Zen.
A tendência é que o preço da arroba tenha alcançado um novo patamar de preços, o que será mantido mesmo com a retomada da oferta de animais nas próximas semanas. Uma das indicações mais fortes sobre tendência de alta do preço do boi é o preço do bezerro. Segundo o Cepea, o preço médio deste ano - considerado o valor negociado ao longo deste ano até 31 de julho - foi de R$ 404,35 por cabeça. A alta acumulada do preço do bezerro neste ano já é de 18,8%.
A alta de preços no início da cadeia da carne bovina começa a chegar aos consumidores. O quilo da carne no atacado (dos frigoríficos para os varejistas) subiu 7% este ano. Em 2006, esta alta foi de 3,9%.
AGNALDO BRITO