Uma façanha da Embrapa

14/08/2007

Uma façanha da Embrapa

Nestes tempos de fartura de apagões na vida nacional, que transformam a leitura dos jornais num exercício de melancolia, a notíCia, no Estado da quarta-feira, dia 8, de um grande avanço brasileiro no setor de ponta do século 21- a biotecnologia - merece dupla comemoração: pela proeza científica, naturalmente, mas também por ela representar um mais do que bem-vindo contraponto ao relato das desventuras que o País experimenta em seqüência, vindas quase todas das instituições de governo. No entanto, como se verá adiante, trata-se de uma boa notícia ainda incompleta, dada a incerteza em relação aos seus desdobramentos. E essa incerteza deriva precisamente das tais desventuras em qu~,O''Í~rasil oficial é pródigo.

O fato informado é de aplaudir em cena aberta. Depois de 10 anos de pesquisa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a multinacional alemã da área química Basf, criou a primeira variedade de soja transgênica tolerante a herbicidas made in Brasil. Essa é uma atividade amplamente dominada pelos gigantes mundiais da engenharia genética, a começar da americana Monsanto. Ela detém a patente da soja Roundup Ready (RR), o único produto alimentar do gênero liberado -  a muitíssimo custo – para cultivo comercial e comercialização no País.  O grão modificado pela blema é que se pode dizer tudo, menos isso, Embrapa contém um gene de uma planta que do desempenho da agência federal incumbio torna resistente aos herbicidas usados contra ervas daninhas. 

Concorre diretamente, portanto, com a RR – cujos efeitos já não seriam tão potentes como de início. "Daí a importância de haver outros produtos” assinala o gerente-geral da Embrapa Transferência de tecnologia, José Roberto Rodrigues Peres. Ou, como prefere o diretor-executivo da Embrapa, José Geraldo Eugênio de França "temos de ter uma segunda bala na gulha, para que o agricultor não dependa de uma única tecnologia” .

Além disso, na linha dos estudos de vanguarda em biotecnologia em curso nos países desenvolvidos, a empresa trabalha para incorporar  à sua soja propriedades medicinais, a fim de torná-Ia um insumo economicamente vantajoso à indústria farmacêutica. Nessa frente, a Embrapa se associou a universidades brasileiras e ao instituto nacional de saúde dos Estados Unidos.

 Eis a razão da incerteza apontada no início deste comentário. Primeiro, pelo retrospecto. O milho Liberty Link, da Bayer, o único transgênico aprovado para plantio comercial pela CTNBio desde a sua recriação, na  vigência da atual Lei de BiosSE 2005, depois de nove anos de idal embargado por uma decisão judicial – e tudo voltou à estaca zero quando, solAnvisa e do Ibama, o Conselho Biossegurança, responsável pelo liberação do produto, devolveu o processo à CTNBio. Segundo, porque a fronda do atraso recrudesceu. A mesma Anvisa decidiu ql sas interessadas no cultivo de deverão responder antes a um questões. Só a CTNBio poderia exigir isso.

O terceiro fator de incerteza está nos sinais de que o fato de ser  "brasileiro” o invento da Embrapa não contará entre os medievais. Ao combater a liberação de transgenicos cuja segurança foi verificada em pesquisas no exterior, alegam que elas precisam ser repetidas no Brasil. Agora, nesse caso em que as pesquisas já são feitas em território nacional, dizem "nada muda". A amarga ironia é que a nova soja poderá ser liberada em 20 países, porém aqui não.