MST obtém R$ 90 milhões e decide sair da Suzano
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) provou mais uma vez que somente através da pressão das invasões consegue fazer a máquina da reforma agrária se mover. Na reunião realizada ontem na Secretaria da Agricultura do Estado para discutir a desocupação de quatro fazendas invadidas, os líderes do MST obtiveram a garantia do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (lncra) , RoIf Hachbart, da destinação de R$ 90 milhões à compra de terras para o assentamento de mil famílias do extremo sul da Bahia até o fim de 2008. O va10r é três vezes maior do que o orçamento do escritório Incra- Bahia para 2007.
A promessa da verba foi a única forma de convencer os dirigentes do MST a decidirem retirar as duas mil famílias que invadiram a Fazenda Céu Azul, da Suzano Celulose, no dia 28 de julho. Durante as negociações, que começaram por volta das 9h30 e se estenderam até as 19 horas, os representantes da Suzano se recusaram a aceitar a principal reivindicação do MST, que a empresa destinasse ou comprasse uma propriedade de dez mil hectares para assentar duas mil famílias. Foi preciso muito jogo de cintura do secretário daAgricultura e ReformaAgrária, Geraldo Simões, do ouvido)," agrário nacional Gersino José da Silva Filho, e do diretor regional do Incra, Luiz Gugé, para costurar um acordo, oferecendo a saída dos R$ 90 milhões.
Mesmo assim, o MST só admitia deixar a Céu Azul se o Incra ou o governo do Estado disponibilizasse uma área provisória para transferir as duas mil famílias, pois a entidade' conforme um dos seus líderes, Oronildo Costa, "não iria voltar para as margens da BR-101", onde estavam os agricuitores antes de invadir a propriedade. O acordo só não foi sacramentado na reunião de ontem devido a essa pendência. Isso fez com que a reunião fosse suspensa e recomeçasse na manhã de hoje na Casa Militar. ContUdo, nanoite de ontem, o secretário Geraldo Simões informou que foi encontrada uma área da União no município de Teixeira de Freitas para a transferência dos trabalhadores sem-terra.
O governo estadual conseguiu cumprir com eficiência seu papel de intermediador entre o MST, o lncra e os proprietários de fazendas invadidas apesar de os ruralistas se queixarem de que a Polícia Militartem se recusado a cumprir mandados de reintegração de terras invadid~s antes de 'e comunicar com a Governadoria. Para evitar conflitos, a orientação do governo é esgotar todas as formas de negociação.antes do uso da PM.
Também foram discutidas a situação das fazendas Itaúna (Vale do luiú), Mandacaru (Santa Luz) e Capela de São José (Valença). O caso da Itaúna, ocupada por 700 famílias, .será rediscutido, e a Mandacaru (120 famílias) depende de uma decisão da Justiça Federal, pois o proprietário contestou a vistoria realizada pelo Incra. Sobre a Capela de São José, o MST concordou em retirar as 200 famílias até a sexta-feira. A fazenda não se presta à reforma agrária, mas o dono Luís Teles se comprometeu a abrir negociação com Coordenadoria de Desenvolvimento Agrário do Estado para uma eventual venda. Teles aproveitou para esclarecer que não acusou ninguém do MST de lhe propor a chamada "ocupação amigável".
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