Para Nestlé, uso do milho no etanol encarece os alimentos

17/08/2007

Para Nestlé, uso do milho no etanol encarece os alimentos

O mundo terá de se acostumar com preços mais altos dos alimentos nos próximos anos e parte da culpa seria da decisão nos Estados Unidos de converter milho em etanol. O alerta é da Nestlé, maior empresa de alimentos do mundo, e que ontem anunciou seus resultados financeiros para o primeiro semestre de 2007, atingindo vendas de US$ 42 bilhões.

Em apenas seis meses, a gigante suíça vendeu mais que toda a exportação agrícola do Brasil no período, que chegou a US$ 32 bilhões.

O resultado da Nestlé foi tão positivo que acabou limitando as perdas das bolsas européias ontem, em mais um dia de turbulência nos mercados. As ações do grupo suíço apresentaram alta de 9,5% em um único dia. Segundo a empresa, porém, a elevação nos preços das commodities deverá atingir o desempenho da multinacional no segundo semestre, quando os valores dos principais ingredientes dos produtos vendidos pela Nestlé começarão a ser calculados na fabricação dos alimentos. Leite, cacau, café, milho e açúcar são alguns dos principais itens nos produtos da Nestlé que, nos últimos meses, vêm sofrendo uma alta no mercado internacional.

Para a Nestlé, a boa notícia é que, no final de 2007 e 2008, o aumento dos preços das commodities não será tão pronunciado como nos últimos meses. O problema é que permanecerão em um nível acima do que existe hoje.

"Nossa avaliação é que os preços de commodities vão se estabilizar entre este ano e o próximo, mas em um patamar mais elevado", explicou François-Xavier Perroud, diretor de comunicações do grupo.

Diante desse cenário, a Nestlé acredita que não ficará isenta das consequências dessa alta e os custos de produção podem acabar aumentando. "Na segunda metade do ano, esses altos preços devem reduzir um pouco nosso volume de crescimento", afirmou a empresa em um comunicado.

No primeiro semestre, parte da resposta da Nestlé para compensar a alta das commodities foi promover um aumento nos preços de seus produtos de, em média, 2,2%. Em alguns casos, a modificação de preços chegou a 5%, como nos produtos com elevado conteúdo de leite.

Em menos de um ano, o preço internacional do leite dobrou. Além de elevar seus próprios preços, outra estratégia da multinacional é a de promover maior eficiência e se concentrar em produtos de alto valor agregado.

Para os executivos do grupo, a pressão inflacionária deve continuar em 2008. "Uma série de fatores está gerando essa alta das commodities. Há uma maior demanda por alimentos no mundo, falta de fornecimento de alguns países e um volume cada vez maior de terra usada para o milho que é destinado ao etanol", explicou Perroud.

Segundo a empresa, enquanto nos Estados Unidos essa prática for mantida na questão do milho, dificilmente os preços dos produtos agrícolas vão cair. Para a gigante do setor de alimentos, Washington precisa reavaliar a sustentabilidade do modelo. A Nestlé, porém, faz questão de deixar claro que problema não é cana-de-açúcar no Brasil para a produção do etanol que está gerando a tendência inflacionária.

Por enquanto, porém, a estratégia da Nestlé para driblar os custos de produção parecem estar dando resultados. Para o primeiro semestre do ano, a alta de vendas foi de 8,4%, com US$ 3,2 bilhões a mais que no ano passado. O crescimento real da empresa chegou a 5,3% e o lucro líquido foi de US$ 4 bilhões, 18,4% a mais que em 2006.

Segundo o grupo, as vendas da empresa no Brasil também tiveram um "ótimo resultado", embora os números não tenham sido divulgados. No setor de chocolates, a alta de vendas no País foi de mais de 10%, ante uma média mundial de 4,6%. Ásia, Venezuela e Oriente Médio tiveram resultados similares aos do Brasil no setor de chocolates.

JAMIL CHADE