Semi-árido vai ter verba de R$ 1,5 bi
No município de Uauá, a 416 km de Salvador e a 120 km da margem do Rio São Francisco, a falta de água já atinge diversas localidades da zona rural, forçando os moradores a mudarem-se para cidades maiores em busca de ajuda. A última grande chuva no município ocorreu em fevereiro, e, de lá para cá, apenas a sede tem abastecimento garantido, através de uma adutora que capta a água do rio São Francisco.
A situação reflete uma realidade que o governador Jaques Wagner vai se propor a mudar quando for lançar, com o apoio do Banco Mundial (Bird), o programa Água para Todos, no próximo dia 31, em Salvador. Nos 258 municípios do semiaacute;rido baiano, o processo de desertificação tem avançado, e, de 1991 a 2000, conforme as estatísticas do Censo IBGE-2000, a população rural diminuiu em toda a região, passando de 2.210.797 para 1.960.009 habitantes.
O programa de combate à seca, cujo valor é de R$ 1,5 bilhão, é financiado, em parte, pelo governo federal e pelo Banco Mundial (Bird) e terá validade pelos próximos sete anos. Conforme explicou o diretor-geral da Superintendência de Recursos Hídricos na Bahia, Júlio Rocha, além de realizar ações emergenciais no combate à seca, o programa vai mapear todos os recursos hídricos no Estado, incluindo reservas de água subterrânea, e unificar as ações e programas já desenvolvidos por diferentes órgãos da administração estadual.
LONGO PRAZO– Uma das primeiras ações será a de identificar o potencial hídrico das 17 bacias hidrográficas da Bahia e as reservas de água subterrânea em condições de serem aproveitadas. Para viabilizar as ações, o governo do Estado vai buscar parcerias com entidades sociais na própria região. “É uma forma de assegurar a participação popular e identificar com os próprios habitantes as prioridades dos investimentos”, disse o superintendente Júlio Rocha.
A situação dos 258 municípios baianos do semiaacute;rido foi um dos pontos discutidos no Seminário Internacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca. De acordo com o coordenador do programa homônimo ao seminário, do Ministério do Meio Ambiente, José Roberto Lima, 80% do território baiano pode virar um semideserto, com base nos estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que mostram que as mudanças climáticas, as queimadas e a ação do homem podem fazer com que até 2050 a desertificação atinja 50% das terras agrícolas da América Latina.A Bahia tem 62% do seu território no semi-árido.
Desertificação já avança na Bahia
Na Bahia, segundo os dados do IBGE referentes ao Censo 2000, 3.623.476 habitantes viviam na região do semiaacute;rido até aquela época. Em 1991, a população era maior: 3.763.184 moravam nos 280.652 km² de área onde estão 258 municípios. Em um deles, Uauá, a situação já é preocupante. Além da seca anual, o processo de desertificação fez com que os moradores de algumas comunidades abandonassem suas terras em busca de áreas melhores para plantio. “Não se planta mais nada, porque o solo virou areia”, diz o agricultor e representante da cooperativa de produtores rurais do município, Valdivino Rodrigues, 38 anos.
Ele explicou que no povoado de Campo Novo, onde viviam aproximadamente 150 famílias, a maior parte dos moradores já abandonou casas e terras e se mudou para a cidade. “Lá, eles viram pedintes e trabalhadores de aluguel em fazendas que ainda contratam pessoal para cuidar da lavoura”, disse.
De acordo com os dados do Ministério do Meio Ambiente, as áreas sujeitas à desertificação se situam nos nove Estados da Região Nordeste, abrangendo 1.482 municípios, totalizando 1.338.076 km², onde vivem aproximadamente 32 milhões de habitantes, ou o equivalente a 15,7% do território e 18,6% da população nacionais.
Dentre as áreas do semiaacute;rido propriamente ditas e as do seu entorno, a Bahia é o Estado que tem o maior número de municípios (289) afetados, seguido do Piauí (215), Paraíba (208), Ceará (184), Rio Grande do Norte (158), Pernambuco (135), Alagoas (53), Sergipe (48), e Maranhão (27). Nos Estados de Minas gerais (142) e Espírito Santo (23), o processo de desertificação também avança.
Hoje, o consultor do Ministério do Meio Ambiente, José Otamar de Carvalho, apresenta painel sobre a “A Desertificação no Brasil e no Nordeste Brasileiro”, no Seminário Internacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Sec
ADILSON FONSÊCA